Nenhum personagem começa tão bem e termina tão mal quanto Saul na Bíblia: o primeiro rei de Israel foi escolhido por Deus, ungido por profeta, transformado por dentro, e morreu caindo sobre a própria espada, abandonado pelo céu que o havia coroado. A história de Saul na Bíblia não existe para ser admirada nem odiada; existe como o estudo mais detalhado que as Escrituras oferecem sobre como um chamado verdadeiro se perde. E o mecanismo da perda é mais banal e mais atual do que parece.
Resumo
- Saul, da tribo de Benjamim, foi o primeiro rei de Israel, ungido por Samuel quando o povo exigiu um rei “como as outras nações”.
- Começou humilde e transformado: Deus lhe mudou o coração e o Espírito vinha sobre ele.
- Caiu por duas desobediências que pareciam pequenas: um sacrifício apressado em Gilgal e a poupança de Agague e do despojo amalequita.
- Ouviu de Samuel o veredito que define seu reinado: obedecer é melhor do que sacrificar.
- Consumiu os últimos anos perseguindo Davi, consultou uma médium em desespero e morreu em batalha no monte Gilboa.
Quem foi Saul na Bíblia?
Saul era filho de Quis, da pequena tribo de Benjamim, e o texto o apresenta pelo atributo que o povo mais valorizava:
Este tinha um filho, cujo nome era Saul, moço, e tão belo que entre os filhos de Israel não havia outro homem mais belo do que ele; desde os ombros para cima sobressaía a todo o povo.
1 Samuel 9:2
Ele é literalmente o rei que se vê de longe: alto, bonito, impressionante. Israel havia exigido de Samuel um rei para ser “como todas as nações”, rejeitando o reinado direto de Deus, e Deus concedeu o pedido dando ao povo exatamente o que os olhos pedem. A história inteira de Saul funciona como resposta a essa exigência: eis o rei segundo a aparência; observem no que dá. O contraste viria depois, quando Deus escolhesse o substituto pelo critério oposto, dizendo a Samuel que o SENHOR não vê como vê o homem, porque o homem vê o que está diante dos olhos, e o SENHOR olha para o coração.
Saul começou mal?
Não, e é isso que torna a história séria. O começo de Saul é genuinamente bom. Quando Samuel o unge, o texto registra uma obra real de Deus nele:
Sucedeu, pois, que, virando ele as costas para partir de Samuel, Deus lhe mudou o coração em outro; e todos aqueles sinais aconteceram naquele mesmo dia.
1 Samuel 10:9
O jovem rei se escondeu entre a bagagem no dia da coroação, recusou vingança contra os que o desprezaram, e liderou com coragem o resgate de Jabes-Gileade. Humildade, mansidão, vitória: o pacote completo. Quem parasse de ler no capítulo 11 apostaria tudo em Saul. A Bíblia registra esse bom começo com honestidade justamente para que ninguém trate a queda como inevitável. Não era. Foi construída por decisões.
Quais foram os pecados de Saul?
Dois episódios selaram o reinado, e nenhum deles parece grave à primeira leitura.
O sacrifício de Gilgal
Diante dos filisteus, com o exército debandando, Saul deveria esperar Samuel por sete dias para o sacrifício. No sétimo dia, com o profeta atrasado e os soldados fugindo, Saul ofereceu o holocausto ele mesmo. Samuel chegou na sequência e entregou o veredito:
Porém agora não subsistirá o teu reino; já tem buscado o SENHOR para si um homem segundo o seu coração.
1 Samuel 13:14
Repare no que Saul fez: um ato religioso. Ele não adorou ídolos, ofereceu culto ao Deus certo, do jeito errado, movido por pânico e pressa. A ansiedade que não espera é apresentada aqui como questão de reinado, não como detalhe de agenda.
A poupança de Amaleque
A segunda ordem era clara: destruir Amaleque por completo, sem despojo. Saul venceu a batalha e poupou o rei Agague e o melhor do gado, “para sacrificar ao SENHOR”, segundo a desculpa oficial. A resposta de Samuel em 1 Samuel 15 é um dos textos mais importantes da Bíblia sobre a diferença entre religião e obediência:
Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros. Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniqüidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei.
1 Samuel 15:22-23
Vale demorar na cena seguinte, porque ela é o raio-X do coração de Saul: confrontado, ele admite o pecado, mas emenda o pedido que o denuncia: “honra-me agora diante dos anciãos do meu povo”. O arrependimento dele tinha plateia. A diferença entre Saul e Davi não é que um pecou e o outro não; Davi pecou pior. A diferença está no arrependimento: Davi quebrou diante de Deus, Saul gerenciou a própria imagem diante dos homens.
Como foi o declínio de Saul?
A partir da rejeição, o texto registra uma frase sombria:
E o Espírito do SENHOR se retirou de Saul, e atormentava-o um espírito mau da parte do SENHOR.
1 Samuel 16:14
O restante do reinado é consumido por uma obsessão: Davi, o jovem que as mulheres cantavam ter ferido dez milhares. Saul, que já não guerreava contra os filisteus com o mesmo zelo, mobilizou exércitos para caçar o próprio genro pelas cavernas do deserto. A inveja fez o que os inimigos externos não conseguiram: transformou o rei de Israel em perseguidor de israelitas. Duas vezes Davi teve a vida de Saul nas mãos e a poupou, e duas vezes Saul chorou, admitiu e voltou a caçá-lo. Remorso recorrente sem mudança de rota é um dos sinais mais claros de um coração já entregue.
Como Saul morreu?
O fim chegou no monte Gilboa, diante dos filisteus. Antes da batalha, o texto mostra o retrato final do rei abandonado:
E perguntou Saul ao SENHOR, porém o SENHOR não lhe respondeu, nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas.
1 Samuel 28:6
Desesperado, o homem que havia banido os médiuns de Israel procurou uma em En-Dor, à noite, disfarçado. A palavra que recebeu foi a que temia: amanhã, tu e teus filhos estareis comigo. No dia seguinte, ferido pelos arqueiros e com os filhos mortos, incluindo Jônatas, o melhor de sua casa, Saul caiu sobre a própria espada. O reinado que começou com um rapaz escondido na bagagem terminou num suicídio em campo de batalha. E Davi, o perseguido, compôs para ele um dos lamentos mais generosos da Bíblia, sem uma palavra de triunfo.
Perguntas frequentes sobre Saul
Por que Deus escolheu Saul se sabia que ele falharia?
Saul foi a resposta ao pedido do povo por um rei “como as outras nações”. Deus concedeu o pedido e o usou para educar Israel sobre a diferença entre o rei dos olhos e o rei do coração, preparando o caminho para Davi e, na linhagem dele, para o Rei definitivo.
Saul perdeu a salvação?
O texto diz que o Espírito se retirou dele e que o reino lhe foi tirado, e Samuel anuncia “estarás comigo” na véspera da morte. A Bíblia registra a tragédia terrena sem abrir o veredito eterno, e a prudência recomenda parar onde o texto para.
Qual era a relação de Saul com Samuel?
Samuel o ungiu, o confrontou e o chorou: o texto diz que Samuel teve pena de Saul até o fim da vida. O profeta que entregou o veredito nunca se alegrou com ele, um modelo de como se confronta alguém que se ama. A história do próprio Samuel começa com a oração de sua mãe, contada em Ana na Bíblia.
Quanto tempo Saul reinou?
Cerca de quarenta anos, segundo Atos 13:21. A maior parte desse tempo, depois de Gilgal e Amaleque, foi um reinado formalmente de pé e espiritualmente encerrado.
O que significa “espírito mau da parte do SENHOR”?
A expressão indica que até o tormento de Saul permanecia sob a soberania de Deus, como juízo pela rejeição. Era aliviado quando Davi tocava harpa, o que colocou o futuro rei dentro do palácio do atual, num arranjo que só a providência explica.
O rei que os olhos pedem
Saul é a resposta de Deus a uma oração errada que ele decidiu atender. Israel pediu estatura, e recebeu; pediu aparência, e recebeu; pediu um rei como o das outras nações, e recebeu exatamente isso, com o resultado das outras nações. A história completa dele é uma pergunta devolvida a cada geração de eleitores, membros de igreja e formadores de opinião: pelo que você escolhe seus reis?
E há a pergunta mais íntima, a que Gilgal faz a cada um: quando a pressão apertar e o profeta atrasar, você espera a palavra ou oferece o sacrifício apressado que a sua ansiedade exige? Saul respondeu errado duas vezes em quarenta anos de reinado. Foi o suficiente.