Quase toda oração pelos filhos que eu já ouvi, e que eu mesmo faço, é defensiva: proteção na estrada, saúde, que a prova corra bem, que a amizade errada não pegue. Não há nada de errado nisso. Mas quando você olha para como Jó e Ana oravam pelos filhos deles, aparece uma diferença que incomoda um pouco. A oração pelos filhos que a Bíblia registra com mais detalhe não mira o que dá para ver. Ela mira o coração, que é justamente o que nenhum pai consegue vigiar.
Resumo
- Jó orava pelos filhos de forma preventiva e pela consciência deles, não só pela segurança física.
- Ele fazia isso “de madrugada” e “continuamente”, como hábito, não como reação a crises.
- Ana orou entregando o filho a Deus antes mesmo de tê-lo, e depois cumpriu a entrega.
- Isaías 54:13 e 3 João 4 mostram o alvo da oração: filhos “ensinados do SENHOR” que “andam na verdade”.
- Orar pelos filhos com as mãos abertas é mais difícil, e mais bíblico, do que orar segurando.
O que Jó orava pelos filhos?
“Sucedia, pois, que, decorrido o turno de dias de seus banquetes, enviava Jó, e os santificava, e se levantava de madrugada, e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles; porque dizia Jó: Talvez pecaram meus filhos, e amaldiçoaram a Deus no seu coração. Assim fazia Jó continuamente.”
Jó 1:5
Tem três coisas nesse versículo que valem parar. A primeira: Jó orava por um pecado que ele não tinha visto. “Talvez pecaram” e “no seu coração”. Ele intercedia pela vida interior dos filhos, o território onde um pai não entra.
A segunda: “de madrugada”. Não era quando sobrava tempo. Era a primeira coisa. A terceira: “continuamente”. Não era depois de uma festa que saiu do controle. Era a cada ciclo, tivesse acontecido algo ou não. A oração pelos filhos, para Jó, era rotina de manhã, não alarme de incêndio.
O que Ana ensinou sobre entregar um filho na oração?
Ana passou anos sem conseguir engravidar. Quando finalmente orou pedindo um filho, o pedido já vinha com uma condição que ela mesma impôs: se viesse, seria devolvido ao serviço de Deus. E ela cumpriu.
“Por este menino orava eu; e o SENHOR atendeu à minha petição, que eu lhe tinha feito. Por isso também ao SENHOR eu o entreguei, por todos os dias que viver, pois ao SENHOR foi pedido.”
1 Samuel 1:27-28
Leia o capítulo inteiro em 1 Samuel 1 e repare no verbo que se repete: pedir, atender, entregar. Ana não orou “me dá e é meu”. Ela orou “me dá e é teu”. A história completa dela está em lições de Ana, mãe de Samuel.
Isso é desconfortável de aplicar. Entregar um filho na oração significa reconhecer que ele não é projeto seu, é gente com um chamado próprio. A maioria de nós ora pedindo que os planos que fizemos para eles deem certo.
| Oração defensiva (a mais comum) | Oração que Jó e Ana modelam |
|---|---|
| Proteção do corpo, saúde, boas notas | O coração: “talvez pecaram no seu coração” (Jó 1:5) |
| “Deus, guarda o meu filho para mim” | “Deus, ele é teu; eu te entrego” (1 Samuel 1:28) |
| Reativa, quando algo já deu errado | Constante, “de madrugada”, “continuamente” (Jó 1:5) |
| Foco no sucesso que se vê | Foco em “andar na verdade” (3 João 4) |
E quando o filho já cresceu e se afastou?
A oração muda de ferramenta, não de alvo. Você já não controla a rotina dele, então a intercessão vira mais promessa e menos instrução.
“E todos os teus filhos serão ensinados do SENHOR; e a paz de teus filhos será abundante.”
Isaías 54:13
Essa é uma promessa para segurar em oração quando o seu ensino já não alcança. E João, escrevendo a alguém que ele chamava de filho na fé, resume o que um pai mais quer:
“Não tenho maior gozo do que este, o de ouvir que os meus filhos andam na verdade.”
3 João 4
Não “andam bem de vida”. Andam na verdade. Se o afastamento hoje é de fé, a oração pelos filhos vira paciência longa, do tipo que Ana teve para engravidar e Mônica teve por Agostinho.
Como é uma oração pelos filhos que não seja só defensiva?
Some ao “protege” um “molda”. Fica assim:
“Senhor, protege o corpo dele, mas trabalha no que eu não enxergo: a consciência, as escolhas que ele faz quando ninguém vê. Ele é meu, mas é teu antes. Se o teu plano para a vida dele não for o meu plano, me ajuda a soltar. Que ele ande na verdade, mesmo que demore.”
Para encaixar isso numa rotina de casa, junto com a oração pelo restante da família, veja também a oração pela família no dia a dia.
Perguntas frequentes sobre oração pelos filhos
Qual é o versículo para orar pelos filhos?
Isaías 54:13 é o mais usado, pela promessa dos filhos “ensinados do SENHOR”. O Salmo 127:3-4, que chama os filhos de “herança” e “flechas”, ajuda a lembrar que eles são confiados, não posse.
Como orar por um filho rebelde?
Como Jó: pelo coração, não só pelo comportamento. Peça que Deus alcance a consciência dele em lugares que você não acessa. E ore pela sua própria paciência, porque esse tipo de oração costuma ser longo.
Devo orar em voz alta com meus filhos ou sozinho?
Os dois. Orar com eles ensina; orar sozinho por eles sustenta. Jó orava sozinho, de madrugada, e os filhos nem sabiam. Isso também é amor.
Ana entregou Samuel ainda criança. Isso quer dizer que devo “abrir mão” dos meus filhos?
Não no sentido de deixá-los. Quer dizer reconhecer, na oração, que eles têm um chamado que pode não coincidir com o que você sonhou. Entregar é de coração, antes de ser de agenda.
Meu filho ainda é bebê. Já vale orar por decisões futuras?
Vale. Jó orava por ciclos inteiros de uma vez. Orar hoje pelas amizades, pelo casamento e pela fé de um filho que ainda nem anda é plantar cedo.
A oração que ninguém vê
Jó se levantava antes do sol, oferecia sacrifício por cada filho pelo nome, e voltava a dormir ou começava o dia. Os filhos seguiam a vida sem saber que a manhã deles tinha começado com o pai intercedendo por pecados que talvez nem tivessem cometido.
É provável que a parte mais importante da sua oração pelos filhos seja exatamente essa: a que eles nunca vão presenciar, feita cedo, repetida por anos, sobre o coração deles, que é a única parte que você não consegue proteger com as suas próprias mãos.