Estudo de Tito: o manual de três capítulos para pôr uma igreja em ordem

Um estudo de Tito cabe numa pausa de almoço: são 46 versículos em três capítulos. A carta foi escrita por Paulo a um companheiro que ele havia deixado na ilha de Creta com uma ordem resumida em Tito 1:5, “pôr em boa ordem as coisas que ainda restam” e nomear presbíteros “de cidade em cidade”.

Este estudo de Tito percorre a carta inteira, na sequência em que ela foi escrita: quem foi Tito, por que Creta era um posto difícil, o que Paulo exige de um líder de igreja, como a “sã doutrina” muda cada grupo da comunidade, e por que o apóstolo insiste em “boas obras” seis vezes no mesmo texto em que afirma que a salvação não vem das obras. É um manual curto de organização de igreja, e quase tudo nele gira em torno de caráter.

Resumo

  • Tito é uma das três Cartas Pastorais de Paulo, ao lado de 1 e 2 Timóteo, endereçada a um colaborador grego encarregado de pôr em ordem as igrejas de Creta.
  • A carta lista as qualidades exigidas de um presbítero ou bispo, e quase todas dizem respeito a caráter e conduta, não a dom ou conhecimento.
  • Paulo cita um poeta cretense que chamou o próprio povo de “sempre mentirosos” e diz que o testemunho procede, para justificar por que a liderança ali precisa ser irrepreensível.
  • O capítulo 2 aplica a “sã doutrina” a grupos específicos da comunidade: os idosos, as mulheres mais velhas, as mulheres jovens, os rapazes e os servos.
  • O núcleo teológico está em Tito 2:11-14 e 3:4-7: a graça salva sem mérito e, no mesmo gesto, ensina o salvo a abandonar a impiedade e a se dedicar ao bem.

Quem foi Tito e por que Paulo confiava nele?

Tito era grego e não foi circuncidado, um detalhe que Paulo faz questão de registrar em Gálatas ao defender que os convertidos não precisavam virar judeus para seguir Cristo. Curiosamente, o livro de Atos nunca o menciona pelo nome, embora ele apareça treze vezes nas cartas de Paulo, quase sempre em missões delicadas. Foi Tito quem levou a carta mais dura de Paulo à igreja de Corinto e voltou com a notícia de que a comunidade havia se reconciliado.

Na abertura desta carta, o apóstolo o chama de “meu verdadeiro filho, segundo a fé comum”. A expressão indica que Paulo o havia conduzido à fé, e o tom da carta é de um mentor entregando responsabilidade a alguém já testado. Creta não foi a primeira tarefa difícil de Tito, e Paulo escreve como quem sabe que o destinatário aguenta o serviço.

Por que Paulo deixou Tito em Creta?

A missão está dita no quinto versículo:

Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam, e de cidade em cidade estabelecesses presbíteros, como já te mandei.
Tito 1:5

“As coisas que ainda restam” sugere um trabalho começado e não terminado. A datação mais provável coloca a carta entre os anos 63 e 66, depois de uma primeira soltura de Paulo da prisão em Roma, quando ele teria evangelizado a ilha e seguido viagem, deixando as igrejas sem estrutura. A ordem tem duas frentes: nomear líderes em cada cidade e enfrentar os que já corrompiam as casas por dinheiro, descritos poucos versículos adiante como “faladores, vãos e enganadores”.

O que a carta exige de um líder de igreja?

A lista de requisitos para o presbítero é quase toda de temperamento:

Porque convém que o bispo seja irrepreensível, como despenseiro da casa de Deus, não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância; mas dado à hospitalidade, amigo do bem, moderado, justo, santo, temperante.
Tito 1:7-8

De todos os itens, apenas um trata de competência: reter “firme a fiel palavra” para “admoestar com a sã doutrina” e “convencer os contradizentes”. Todo o resto mede como o homem se comporta quando ninguém está avaliando. Se bebe demais, se explode, se é ganancioso, se abre a casa para estranhos. A leitura que faço da lista é que ela funciona como filtro contra exatamente os vícios pelos quais Creta era conhecida. Paulo não está atrás de um gênio da teologia; quer alguém cuja vida não lembre a fama da ilha.

Isso fica claro quando se lê a lista de virtudes ao lado do retrato dos falsos mestres, no mesmo capítulo. Um é o negativo do outro:

O presbítero deve ser (1:6-9) O falso mestre de Creta era (1:10-16)
Irrepreensível, sem acusação pendente “Desordenado, falador, vão e enganador”
Não cobiçoso de “torpe ganância” Ensinava “o que não convém, por torpe ganância”
Firme na “fiel palavra”, conforme a sã doutrina Dava ouvidos a “fábulas” e “mandamentos de homens que se desviam da verdade”
Justo, santo, temperante, amigo do bem “Abominável, desobediente, reprovado para toda a boa obra”
De consciência limpa diante da casa de Deus “O entendimento e a consciência estão contaminados”

Paulo realmente chamou os cretenses de mentirosos?

Um deles, seu próprio profeta, disse: Os cretenses são sempre mentirosos, bestas ruins, ventres preguiçosos. Este testemunho é verdadeiro.
Tito 1:12-13

A frase é de Epimênides, poeta e vidente cretense do século 6 a.C., que Paulo chama de “seu próprio profeta”. No grego antigo havia até um verbo, “cretizar”, que significava mentir. Existe aqui um nó lógico bem conhecido: um cretense afirmando que todo cretense mente. Mas Paulo não está brincando de paradoxo. Ele usa a autocrítica de um autor local para dizer que o problema é real e reconhecido pelos próprios habitantes, e que por isso a igreja não podia se dar ao luxo de líderes com reputação duvidosa.

Vale reparar em quem a repreensão mira logo em seguida. O alvo não são os cretenses em geral, mas gente de dentro da igreja: “confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a boa obra”. A crítica é para a fé que não se traduz em conduta.

Como a “sã doutrina” muda cada grupo da igreja?

O capítulo 2 abre com uma ordem a Tito, “fala o que convém à sã doutrina”, e desce ao detalhe de cada faixa da comunidade. A palavra traduzida como “sã” descreve algo saudável, que cura, a mesma raiz de onde vem “higiene”.

Grupo O que Paulo pede
Homens idosos Sóbrios, graves, prudentes, sãos na fé, no amor e na paciência
Mulheres idosas Sérias, não caluniadoras, sem apego ao vinho, “mestras no bem”
Mulheres jovens Amar marido e filhos, castas, cuidadosas com a casa
Rapazes Moderados, tendo em Tito um “exemplo de boas obras”
Servos Leais, sem furtar, “ornamento da doutrina de Deus”

Cada bloco termina com um motivo voltado para fora. As mulheres jovens vivem assim “a fim de que a palavra de Deus não seja blasfemada”; Tito ensina com integridade “para que o adversário se envergonhe”; os servos são fiéis para “ornamentar” a doutrina. A conduta interna da igreja é tratada como a primeira propaganda que os de fora leem.

O que Tito ensina sobre graça e boas obras?

Aqui está o coração da carta, e o ponto onde este estudo de Tito junta as duas pontas:

Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens, ensinando-nos que, renunciando à impiedade e às concupiscências mundanas, vivamos neste presente século sóbria, e justa, e piamente.
Tito 2:11-12

A graça, no vocabulário de Paulo, não se limita a perdoar. Ela “ensina”. É professora, e o que ela ensina é uma vida diferente. Poucos versículos depois, no capítulo 3, o apóstolo fecha o circuito pelo outro lado:

Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo… para que os que crêem em Deus procurem aplicar-se às boas obras.
Tito 3:5-8

Os dois trechos, lidos juntos, resolvem o problema. As boas obras não estão na origem da salvação. Elas brotam depois, como fruto. Quem tenta inverter a ordem cai no retrato do falso mestre de 1:16, que “confessa” a Deus com a boca e o “nega” com o que faz. Tito é o caminho mais curto do Novo Testamento entre Paulo e Tiago: a fé que basta para salvar nunca aparece sem obras.

Como a carta manda lidar com quem divide a igreja?

Mas não entres em questões loucas, genealogias e contendas, e nos debates acerca da lei; porque são coisas inúteis e vãs. Ao homem herege, depois de uma e outra admoestação, evita-o.
Tito 3:9-10

A palavra grega por trás de “herege” aqui, “hairetikós”, aponta para o faccioso, alguém que forma panelinhas e racha o grupo, mais do que alguém com um erro de conteúdo. A instrução de Paulo é econômica: duas conversas francas e, se a pessoa insistir em brigar, corte o contato. O objetivo é blindar a comunidade do desgaste, não ganhar a discussão. É a mesma lógica de 1:11, onde ele diz que a certos faladores “convém tapar a boca”.

Quem são os nomes que aparecem no fim?

Os últimos versículos são logística de missão. Paulo vai passar o inverno em Nicópolis e pede que Tito vá encontrá-lo assim que Ártemas ou Tíquico chegarem para render o posto. Manda também cuidar da viagem de “Zenas, doutor da lei, e Apolo”, este o mesmo pregador eloquente que aparece no livro de Atos e nas cartas aos coríntios, “para que nada lhes falte”. E encaixa, no penúltimo versículo, mais uma menção ao tema que atravessa a carta: “os nossos aprendam também a aplicar-se às boas obras, nas coisas necessárias, para que não sejam infrutuosos”.

Como fazer um estudo de Tito na prática

A carta toda se lê em cerca de dez minutos. Comece assim, do início ao fim, sem parar, na Bíblia online. É curta o bastante para uma pausa de almoço.

Na segunda leitura, marque com uma cor toda vez que aparecer “boa obra” ou “boas obras”, são seis ocorrências, e com outra cor cada “sã doutrina” ou “são na fé”. Esses dois fios sustentam a carta. Um estudo de Tito que acompanhe as duas linhas percebe que Paulo nunca separa o que se crê do que se faz.

Na terceira passada, leia a lista de qualidades do presbítero, em 1:6-9, ao lado da descrição dos falsos mestres, em 1:10-16. Os dois retratos estão no mesmo capítulo e se espelham: cada virtude pedida ao líder responde a um defeito do encrenqueiro. Para ir além, compare essa lista com a de 1 Timóteo 3 e com outros estudos das cartas de Paulo.

Perguntas frequentes sobre Tito

Quem escreveu a carta a Tito e quando?

O apóstolo Paulo, que se identifica no primeiro versículo. A maioria dos estudiosos data a carta entre os anos 63 e 66, no intervalo entre a primeira e a segunda prisão de Paulo em Roma, próxima da escrita de 1 Timóteo.

Tito é o mesmo que Timóteo?

Não. Eram dois colaboradores diferentes de Paulo. Tito era grego e não foi circuncidado, conforme Gálatas 2:3; Timóteo tinha mãe judia e foi circuncidado pelo próprio Paulo, em Atos 16. Cada um recebeu cartas pastorais distintas.

Onde fica Creta e por que a ilha tinha má fama?

Creta é uma ilha grande do Mediterrâneo, ao sul do mar Egeu, hoje parte da Grécia. Na Antiguidade, “cretizar” era usado como sinônimo de mentir, e o poeta cretense Epimênides havia escrito que seus conterrâneos eram “sempre mentirosos”, frase que Paulo cita em Tito 1:12.

Tito ensina que a salvação depende de boas obras?

Não. Tito 3:5 afirma que Deus salvou “não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia”. As boas obras aparecem na carta como resultado natural de quem foi salvo, nunca como preço da salvação.

O que é a “sã doutrina” em Tito?

No grego, a palavra traduzida por “sã” descreve algo saudável, que cura. Para Paulo, é o ensino que produz uma vida reta, em oposição às “fábulas judaicas” e aos “mandamentos de homens” que, segundo ele, só geram disputa e não mudam ninguém.

Qual a relação de Tito com 1 e 2 Timóteo?

As três formam o grupo chamado Cartas Pastorais: orientações de Paulo a delegados encarregados de organizar e defender igrejas locais. Tito é a mais curta das três e a mais concentrada na tarefa de nomear presbíteros, e um estudo de Tito rende mais quando lido ao lado das outras duas.

Quem faz os estudos bíblicos deste site?

Os textos são escritos por João Andrade, que estuda a Bíblia há mais de quinze anos. O método de trabalho e a trajetória dele estão na página do autor.

A doutrina que cabia numa mochila

A carta a Tito se despede pedindo que ele cuide para que Zenas e Apolo “nada lhes falte” na viagem, e que os cristãos de Creta “aprendam também a aplicar-se às boas obras, nas coisas necessárias”. A última instrução prática de uma carta sobre sã doutrina é ajudar duas pessoas a se preparar para uma estrada.

Numa ilha onde a suposição automática era que você estava sendo enganado, o argumento mais forte a favor do evangelho aparecia num irmão em quem dava para confiar. Pense na próxima vez que alguém da sua comunidade precisar de algo concreto de você, uma carona, um prato de comida, uma semana ajudando numa mudança. Repare se a sua resposta vem antes ou depois de você calcular o custo. Tito diria que é nesse intervalo de poucos segundos que a doutrina que você diz crer fica, enfim, visível.

João Andrade

João Andrade

João Andrade estuda a Bíblia há mais de 15 anos. Não é teólogo de formação: o que tem é anos de estudo pessoal, centenas de livros de exegese lidos e o hábito de conferir cada versículo no contexto e no idioma original antes de escrever. Criou o Bíblia Online Fiel para o cristão que quer profundidade sem linguagem acadêmica.