Um estudo de Lamentações precisa começar por uma pergunta incômoda: por que a frase mais usada para consolar alguém, “novas são cada manhã”, aparece no meio de um livro sobre uma cidade em ruínas, onde a fome chegou ao ponto de as mães cozerem os próprios filhos (4:10)? A resposta curta é que ela foi escrita por alguém que ainda estava dentro das ruínas.
Este estudo de Lamentações lê o versículo no lugar onde nasceu, entre cinco poemas sobre a queda de Jerusalém, e mostra a forma alfabética que o português esconde, por que o livro chama a própria destruição de cumprimento de uma palavra antiga e por que ele termina sem consolo.
Resumo
- Lamentações reúne cinco poemas escritos depois da destruição de Jerusalém pelos babilônios, e a tradição os atribui a Jeremias, embora o texto não cite o autor.
- Os capítulos 1 a 4 são acrósticos: seguem as letras do alfabeto hebraico. O capítulo 5 tem o mesmo número de versículos, mas perde o acróstico.
- O capítulo 3, o mais longo, traz “as suas misericórdias não têm fim” (3:22-23) apenas quatro versículos depois de “já pereceu a minha força, como também a minha esperança no SENHOR” (3:18).
- As cenas mais duras do livro, como a de 4:10, correspondem a maldições anunciadas antes em Levítico 26:29 e Deuteronômio 28:53.
- O livro termina em 5:22 com uma pergunta aberta, sem resolução, e é por isso que ele ensina a orar quando a resposta ainda não veio.
O que aconteceu com Jerusalém para o livro existir?
O pano de fundo está em 2 Reis 25. Nabucodonosor cercou a cidade, e depois de meses de cerco o capitão da guarda “queimou a casa do SENHOR e a casa do rei, como também todas as casas de Jerusalém”, e os caldeus derrubaram os muros em redor (2 Reis 25:9-10). Foi por volta de 586 a.C. Lamentações é o que sobra desse dia em forma de poesia.
O livro não diz quem o escreveu. O título “Lamentações de Jeremias” vem da tradição, e o perfil de Jeremias explica por que ela faz sentido: o profeta viveu o cerco de dentro. Vale notar que 2 Crônicas 35:25 diz que Jeremias fez uma lamentação por Josias, e que essas lamentações “estão escritas nas lamentações”, mas os estudiosos em geral não as identificam com este livro, que trata da queda de Jerusalém.
Por que o livro tem cinco poemas e um alfabeto escondido?
O hebraico original organiza os capítulos 1 a 4 como acrósticos: cada versículo começa com uma letra do alfabeto, de alef a tav. No capítulo 3 são três versículos para cada letra, por isso ele tem 66 versículos em vez de 22. O capítulo 5 mantém os 22 versículos, mas abandona o esquema. Uma leitura frequente é que a forma serve de moldura para a dor: ela é dita inteira, de A a Z, sem escapar por nenhum lado.
| Poema | Versículos | Forma | Voz principal | Foco |
|---|---|---|---|---|
| 1 | 22 | Acróstico | Narrador e a própria cidade | A viúva sem consolador (1:1, 1:9) |
| 2 | 22 | Acróstico | Narrador, depois a cidade | Deus como inimigo (2:5) e os falsos profetas (2:14) |
| 3 | 66 | Acróstico, três versículos por letra | “Eu sou aquele homem” (3:1) | Dor pessoal e esperança (3:22-23) |
| 4 | 22 | Acróstico | Narrador e o povo | O ouro escurecido (4:1), Sodoma (4:6) e Edom (4:21) |
| 5 | 22 | Sem acróstico | O povo, em oração | “Lembra-te, SENHOR” (5:1) até “Converte-nos” (5:21) |
Como o capítulo 1 mostra uma cidade sem consolador?
O livro abre com uma exclamação: “Como está sentada solitária aquela cidade, antes tão populosa! Tornou-se como viúva, a que era grande entre as nações!” (1:1). O refrão do capítulo é a falta de alguém para consolar, e ele volta cinco vezes: “não tem quem a console” (1:2), “não tem consolador” (1:9), “se afastou de mim o consolador” (1:16), “não há quem a console” (1:17), “não tenho quem me console” (1:21).
Em 1:12 a cidade fala e se dirige a quem passa: “Não vos comove isto a todos vós que passais pelo caminho? Atendei, e vede, se há dor como a minha dor”. Só que a mesma voz que pede compaixão também confessa: “Justo é o SENHOR, pois me rebelei contra o seu mandamento” (1:18). O capítulo 1 já mostra o padrão do livro inteiro. A dor é descrita sem enfeite, e a culpa não é escondida.
Por que o capítulo 2 diz que Deus se tornou inimigo?
Tornou-se o Senhor como inimigo; devorou a Israel, devorou a todos os seus palácios, destruiu as suas fortalezas; e multiplicou na filha de Judá a lamentação e a tristeza.
Lamentações 2:5
É o versículo que mais incomoda quem lê o livro pela primeira vez, e o texto não o suaviza. O poeta vê a mão de Deus no cerco, e por isso em 2:17 a frase é: “Fez o SENHOR o que intentou; cumpriu a sua palavra, que ordenou desde os dias da antiguidade”. A destruição é lida como palavra cumprida. Isso não a torna mais leve, mas dá ao poeta uma explicação para o que viu.
O capítulo aponta também quem falhou antes do cerco: “Os teus profetas viram para ti, vaidade e loucura, e não manifestaram a tua maldade, para impedirem o teu cativeiro” (2:14). Os profetas que só anunciavam o que agradava deixaram de dizer o que teria evitado o cativeiro. E a oração que o capítulo pede não guarda nada para depois: “Derrama o teu coração como águas diante da presença do Senhor” (2:19).
Por que o livro descreve cenas tão duras como a de 4:10?
“As mãos das mulheres compassivas cozeram seus próprios filhos; serviram-lhes de alimento na destruição da filha do meu povo” (4:10). A cena é a mais difícil do livro, e ela tem um antecedente escrito. Corresponde à maldição de Levítico 26:29 (“comereis a carne de vossos filhos, e a carne de vossas filhas”) e à de Deuteronômio 28:53 (“comerás o fruto do teu ventre, a carne de teus filhos e de tuas filhas… no cerco e no aperto com que os teus inimigos te apertarão”).
A leitura comum trata o capítulo 4 como um relato de horrores. Muitos comentaristas leem outra coisa: o que estava avisado na aliança aconteceu, e ninguém em Jerusalém poderia dizer que não tinha sido avisado. Em 4:6 ele compara a cidade a Sodoma, e a comparação é dura: “maior é a iniqüidade da filha do meu povo do que o pecado de Sodoma”.
Onde nasceu “Novas são cada manhã”?
As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; Novas são cada manhã; grande é a tua fidelidade.
Lamentações 3:22-23
Leia o que vem antes. O capítulo 3 abre com “Eu sou aquele homem que viu a aflição” (3:1) e acumula versículos de acusação contra Deus, como “fez-se-me como urso de emboscada” (3:10) e “fartou-me de amarguras, embriagou-me de absinto” (3:15). Em 3:17 ele diz “esqueci-me do bem”, e em 3:18 chega ao fundo: “Já pereceu a minha força, como também a minha esperança no SENHOR”. Quatro versículos depois vem o 3:22.
A virada tem uma dobradiça: “Minha alma certamente disto se lembra, e se abate dentro de mim. Disto me recordarei na minha mente; por isso esperarei” (3:20-21). O poeta não deixa de estar abatido. Ele escolhe lembrar de outra coisa ao mesmo tempo. Vale notar ainda o que 3:22 diz de fato: as misericórdias são “a causa de não sermos consumidos”. O versículo fala de sobrevivência no meio da destruição, e não de uma vida que voltou ao normal.
Como o livro termina, e por que não fecha com consolo?
O poema final é uma oração coletiva. Começa com “Lembra-te, SENHOR, do que nos tem sucedido” (5:1), passa por “Nossos pais pecaram, e já não existem; e nós levamos as suas maldades” (5:7) e chega a uma afirmação de fé: “Tu, SENHOR, permaneces eternamente, e o teu trono subsiste de geração em geração” (5:19). Em seguida vêm o pedido de 5:21, “Converte-nos a ti, SENHOR, e seremos convertidos; renova os nossos dias como dantes”, e a última frase do livro: “Mas tu nos rejeitaste totalmente. Tu estás muito enfurecido contra nós” (5:22).
Segundo a tradição judaica de leitura pública, repete-se o versículo 21 depois do 22, para que o livro não termine em tom de rejeição. Esse acréscimo é de quem lê em voz alta e não está no texto bíblico. O texto termina sem resolver, e com isso ensina que ainda dá para orar quando a resposta não chegou.
Como fazer um estudo de Lamentações na prática
Leia um poema por dia, em voz alta. No capítulo 3, pare em 3:18 e leia só até ali, depois recomece em 3:19. Um estudo de Lamentações que respeite essa pausa entende por que o versículo da esperança pesa tanto: ele está do outro lado do desespero, e não no lugar dele. Abra Lamentações 3 e faça isso uma vez.
Para o julgamento contra Edom citado em 4:21, veja o estudo de Obadias. E para ver como o povo de Deus aprendeu a orar em momentos de perda, o estudo de Salmos mostra os salmos de lamento, que têm a mesma estrutura de queixa e confiança.
Perguntas frequentes sobre Lamentações
Quem escreveu o livro de Lamentações?
O texto não cita o autor. A tradição atribui o livro a Jeremias, que viveu a queda de Jerusalém, e o título “Lamentações de Jeremias” vem dessa tradição.
Sobre o que é o livro de Lamentações?
Sobre a destruição de Jerusalém pelos babilônios. Num estudo de Lamentações, o ponto de partida são os cinco poemas de luto pela cidade, que reconhecem a culpa do povo, descrevem o sofrimento sem suavizar e terminam em oração.
O que é o acróstico de Lamentações?
É a forma dos capítulos 1 a 4 em hebraico, em que cada versículo (ou grupo de três, no capítulo 3) começa com uma letra do alfabeto, de alef a tav. Na tradução para o português essa forma não aparece.
O que significa “as suas misericórdias não têm fim” em 3:22?
Significa que a fidelidade de Deus não se esgota nem no pior momento. O versículo diz que essas misericórdias são a razão de o povo não ter sido consumido, e foi escrito por alguém que acabava de dizer que sua esperança tinha perecido.
Por que Lamentações descreve Deus como inimigo?
Em 2:5 o poeta vê a destruição como obra de Deus, cumprindo o que ele avisara na aliança. É uma leitura dura, mas o livro a mantém junto com o clamor: a mesma pessoa que descreve Deus como inimigo pede a ele, nos versículos seguintes, que olhe para o povo.
Como termina o livro de Lamentações?
Termina em 5:22 com a frase “Mas tu nos rejeitaste totalmente”, sem resolução. Na leitura pública judaica, o versículo 21 é repetido depois dele para que o livro não termine em rejeição.
Quem faz os estudos bíblicos deste site?
Os textos são escritos por João Andrade, que estuda a Bíblia há mais de quinze anos. O método de trabalho e a trajetória dele estão na página do autor.
O versículo que vem depois do abatimento
Os versículos 3:20 e 3:21 vêm colados: “Minha alma… se abate dentro de mim. Disto me recordarei na minha mente; por isso esperarei”. O “por isso” liga uma frase à outra sem apagar a primeira.
Da próxima vez que alguém disser “novas são cada manhã” a quem acabou de perder algo, vale ler o 3:20 primeiro. A esperança do livro vem de quem ainda estava abatido.