Um estudo de 2 Pedro começa por um detalhe que muda o tom de tudo: o apóstolo está escrevendo sabendo que vai morrer em breve. São três capítulos de despedida, ditados por alguém que trata a carta como testamento.
Este estudo de 2 Pedro percorre os três avisos que Pedro deixa registrados: continue crescendo na fé, não caia na conversa dos falsos mestres, e não confunda a demora da volta de Cristo com esquecimento. Entre o primeiro e o último, cabe um capítulo inteiro de fúria contra pregadores que transformaram a fé em negócio.
Resumo
- 2 Pedro se apresenta como a segunda carta do apóstolo Pedro, escrita pouco antes da morte dele, provavelmente entre os anos 64 e 68.
- O capítulo 1 traz a “escada da fé”: sete qualidades para acrescentar à fé, da virtude até a caridade, com o objetivo de não ficar “ocioso nem estéril”.
- Pedro insiste que a mensagem não é lenda, porque ele viu a glória de Jesus com os próprios olhos, no monte da transfiguração.
- O capítulo 2 inteiro descreve falsos mestres gananciosos, com os mesmos exemplos e imagens que aparecem na carta de Judas.
- O capítulo 3 responde aos que zombavam da volta de Cristo: o atraso não existe, é paciência de Deus dando tempo para o arrependimento.
Quem escreveu 2 Pedro e quando?
A carta se abre como “Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo”. O conteúdo indica um homem no fim da vida: “sabendo que brevemente hei de deixar este meu tabernáculo, como também nosso Senhor Jesus Cristo já mo tem revelado” (1:14). A tradição situa a escrita em Roma, pouco antes de Pedro ser executado sob Nero, entre 64 e 68.
Vale a honestidade: 2 Pedro é o livro do Novo Testamento cuja autoria foi mais discutida na igreja antiga. O grego é bem diferente do de 1 Pedro, e escritores como Eusébio, no século 4, registraram que havia dúvidas. A maioria das igrejas manteve a atribuição a Pedro, entendendo que um secretário diferente explica a mudança de estilo, mas o leitor honesto reconhece que essa é a carta mais debatida do Novo Testamento nesse ponto.
O que é a “escada da fé” de 2 Pedro 1?
Acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência, e à ciência a temperança, e à temperança a paciência, e à paciência a piedade, e à piedade o amor fraternal, e ao amor fraternal a caridade.
2 Pedro 1:5-7
São sete qualidades encadeadas, cada uma apoiada na anterior, começando na fé e terminando no amor. Pedro não apresenta isso como uma escada que se sobe uma vez e pronto. O verbo é contínuo, e o resultado esperado está no versículo 8: quem tem essas coisas “abundando” não fica “ocioso nem estéril”.
Repare onde essa lista está colocada. Ela abre a carta, e a carta fecha com um pedido quase igual: “crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor” (3:18). O capítulo assustador sobre falsos mestres fica no meio desse sanduíche. Para Pedro, a defesa contra o ensino errado passa menos por um bom argumento e mais por um caráter maduro, que perde o apetite por esse tipo de coisa.
Por que Pedro insiste que viu com os próprios olhos?
Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade… E ouvimos esta voz dirigida do céu, estando nós com ele no monte santo.
2 Pedro 1:16-18
Pedro está lembrando da transfiguração, quando viu Jesus brilhar e ouviu a voz do Pai dizer “Este é o meu Filho amado”. Um homem prestes a ser morto por causa da mensagem faz questão de deixar claro que não está repetindo uma lenda. Está contando o que viu e ouviu no monte.
É no mesmo trecho que aparece uma das frases mais citadas sobre a Bíblia: “nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação… homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (1:20-21). O ponto é que a profecia não nasceu da cabeça de quem escreveu, então também não pode ser dobrada ao gosto de cada leitor.
Como 2 Pedro descreve os falsos mestres?
O capítulo 2 é um retrato demorado e sem piedade. Eles “introduzirão encobertamente heresias de perdição”, “negarão o Senhor que os resgatou” e, “por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas” (2:1-3). Pedro empilha três julgamentos antigos como precedente: os anjos que pecaram, o dilúvio no tempo de Noé e a destruição de Sodoma e Gomorra, sempre com um justo poupado no meio.
| O que prometem ou aparentam | O que 2 Pedro diz que são |
|---|---|
| “Liberdade” (2:19) | “Servos da corrupção” (2:19) |
| Mestres com conhecimento novo | “Blasfemam do que não entendem” (2:12) |
| Palavras impressionantes (2:18) | “Fontes sem água, nuvens levadas pelo vento” (2:17) |
| Vida espiritual | “Olhos cheios de adultério… coração exercitado na avareza” (2:14) |
| Guias para a maturidade | Seguem “o caminho de Balaão”, o profeta que se vendeu (2:15) |
A imagem de Balaão é a mais afiada. Foi o profeta contratado para amaldiçoar Israel por dinheiro, e que só parou quando a própria jumenta falou e o repreendeu, episódio contado em Números 22 (2:15-16). Pedro está dizendo que existe pregador cuja boca segue quem paga mais.
2 Pedro 2 é a mesma coisa que Judas?
Quase. O capítulo 2 de 2 Pedro e boa parte da carta de Judas usam os mesmos exemplos, na mesma ordem, e as mesmas comparações: anjos presos, Sodoma, Balaão, “nuvens sem água”. Um dos dois textos se apoiou no outro, e os estudiosos não fecharam consenso sobre qual veio primeiro.
A diferença está no formato. Judas é um alerta único e urgente, do tamanho de um bilhete. 2 Pedro encaixa o mesmo aviso dentro de uma carta maior, de despedida, que também fala em crescer na fé e em como será o fim. O perigo é o mesmo, mas a moldura em volta dele muda.
O que os zombadores diziam sobre a volta de Cristo?
Nos últimos dias virão escarnecedores, andando segundo as suas próprias concupiscências, e dizendo: Onde está a promessa da sua vinda? porque desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação.
2 Pedro 3:3-4
O argumento dos zombadores é “nada nunca muda”. A geração anterior morreu esperando, o mundo continua igual, então a promessa da volta de Cristo teria caducado. Pedro responde que eles “voluntariamente ignoram” um caso em que o mundo mudou de vez: o dilúvio. Aquele mundo foi julgado por água, e o atual está “guardado para o fogo, até o dia do juízo” (3:7).
Por que a volta de Cristo demora?
Um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia. O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para conosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se.
2 Pedro 3:8-9
A frase “mil anos como um dia” é constantemente usada para calcular datas do fim. No texto ela faz o contrário: serve para dizer que Deus não conta o tempo como a gente, e por isso “atraso” é a palavra errada. O versículo 9 dá o motivo real da espera. Cada ano a mais é uma janela aberta para que mais gente se arrependa. O que parece esquecimento é, na leitura de Pedro, paciência com prazo.
O destino final não é o fogo, e sim o que vem depois dele: “novos céus e nova terra, em que habita a justiça” (3:13). O fogo limpa o terreno para isso.
Por que Pedro chama as cartas de Paulo de Escritura?
Como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada… entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição.
2 Pedro 3:15-16
Este é o registro mais antigo de um autor do Novo Testamento tratando as cartas de Paulo no mesmo nível das “outras Escrituras”, ou seja, do Antigo Testamento. E vem acompanhado de uma admissão rara: Pedro reconhece que Paulo tem “pontos difíceis de entender”, e que gente despreparada torce esses trechos. A dificuldade de Paulo não é segredo novo, um apóstolo já dizia isso no primeiro século.
Como fazer um estudo de 2 Pedro na prática
Leia os três capítulos de uma vez, em cerca de doze minutos, na Bíblia online. Logo depois, leia a carta de Judas inteira e compare o capítulo 2 de 2 Pedro com ela, versículo a versículo. A semelhança salta aos olhos e ajuda a entender os dois textos.
Na segunda leitura, marque o começo (1:5-11) e o fim (3:14-18) da carta. Os dois trechos mandam a mesma coisa: crescer. Um estudo de 2 Pedro que perceba esse enquadramento lê o capítulo 2, o dos falsos mestres, como o que está sendo cercado pelos dois lados, não como o assunto principal.
Na terceira passada, junte sempre 3:8 e 3:9. Lidos separados, o versículo 8 vira calculadora de datas. Lidos juntos, viram um argumento sobre a paciência de Deus. Para ver como outros autores tratam a volta de Cristo, veja os estudos de 1 Tessalonicenses e das outras cartas em estudos bíblicos.
Perguntas frequentes sobre 2 Pedro
Quem escreveu 2 Pedro e quando?
A carta se apresenta como do apóstolo Pedro, escrita pouco antes da morte dele, por volta dos anos 64 a 68. É o livro do Novo Testamento cuja autoria foi mais discutida na igreja antiga, por causa do estilo bem diferente do de 1 Pedro.
Qual a diferença entre 1 e 2 Pedro?
1 Pedro conforta cristãos que sofrem perseguição vinda de fora. 2 Pedro é uma carta de despedida que alerta contra o perigo de dentro: falsos mestres gananciosos e a perda da esperança na volta de Cristo.
Por que 2 Pedro 2 é tão parecido com Judas?
Os dois textos usam os mesmos exemplos, anjos caídos, o dilúvio, Sodoma e Balaão, e as mesmas imagens. Um provavelmente se inspirou no outro, e os estudiosos não têm consenso sobre a ordem em que foram escritos.
O que significa “mil anos como um dia” em 2 Pedro 3:8?
Que Deus não mede o tempo como nós. A frase não é uma chave para calcular datas do fim, e sim uma resposta a quem achava a volta de Cristo atrasada. O versículo seguinte explica: a demora é paciência, para dar tempo ao arrependimento.
2 Pedro ensina que o mundo vai acabar em fogo?
O texto diz que “os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão” (3:10). Mas o ponto de chegada não é a destruição, e sim “novos céus e nova terra, em que habita a justiça” (3:13).
Pedro considerava as cartas de Paulo como Escritura?
Sim. Em 3:16 ele fala das cartas de Paulo ao lado das “outras Escrituras” e admite que elas têm “pontos difíceis de entender” que algumas pessoas distorcem.
Quem faz os estudos bíblicos deste site?
Os textos são escritos por João Andrade, que estuda a Bíblia há mais de quinze anos. O método de trabalho e a trajetória dele estão na página do autor.
A última palavra foi “cresçam”
Pedro abre a carta mandando “acrescentar” à fé sete qualidades, uma puxando a outra, e a encerra com o mesmo movimento: “crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor” (3:18). Tudo o que assusta no meio, os falsos mestres, o fogo, a zombaria, está entre esses dois pedidos de crescimento.
A tradição diz que Pedro foi executado pouco depois de ditar isto. A frase final de um homem que sabia da própria morte não fala de Roma nem do fim do mundo. Fala em continuar. Se você tivesse uma carta curta para deixar às pessoas que ajudou a formar na fé, ela seria uma lista de perigos ou um empurrão para seguir andando?