Um estudo de Ester costuma começar pelo que o livro não tem: nem “Deus” nem “SENHOR” aparecem em nenhum versículo da ACF. Há, porém, uma pista que os resumos costumam pular e que explica o ódio de Hamã. Ele é chamado de “agagita” (3:1), e Mardoqueu é apresentado como “filho de Quis, homem benjamita” (2:5), os mesmos nomes que 1 Samuel usa para Agague e para o pai de Saul.
Este estudo de Ester segue essa pista até o capítulo 9, mostra como as reviravoltas do livro funcionam, explica por que o rei não podia revogar o decreto de Hamã e o que isso diz sobre a parte mais difícil da história. A personagem tem um perfil próprio no site, e aqui o foco é o livro.
Resumo
- Ester se passa na Pérsia, no reinado de Assuero, com uma jovem judia órfã que vira rainha e um decreto de extermínio contra o seu povo.
- Hamã é “agagita” (3:1) e Mardoqueu é “filho de Quis, homem benjamita” (2:5): a tradição judaica lê aí o eco do duelo entre Saul e Agague em 1 Samuel 15.
- O livro não cita Deus, mas mostra uma sequência de inversões: o anel, a casa, a honra e a forca de Hamã passam para as mãos de Mardoqueu e Ester.
- Pela lei dos persas e medos, o decreto do rei não podia ser revogado (1:19, 8:8), e por isso o segundo decreto (8:11) autoriza os judeus a se defender.
- Purim vem de “Pur”, a sorte lançada por Hamã (3:7), e é a festa que Mardoqueu e Ester mandaram guardar todos os anos (9:20-28).
Por que Hamã é chamado de “agagita” e Mardoqueu de “filho de Quis”?
Em 1 Samuel 15, Deus manda Saul destruir Amaleque, e Saul “e o povo pouparam a Agague, e ao melhor das ovelhas e das vacas” (1 Samuel 15:9). O pai de Saul se chamava Quis e era “de Benjamim” (1 Samuel 9:1). Em Ester, o vilão é “Hamã, filho de Hamedata, agagita” (3:1), e o herói é “Mardoqueu, filho de Jair, filho de Simei, filho de Quis, homem benjamita” (2:5). Muitos leitores percebem o eco: um agagita contra um benjamita da linhagem de Quis, o nome do pai de Saul. E Êxodo 17:16 já tinha avisado que “haverá guerra do SENHOR contra Amaleque de geração em geração”.
Vale notar o que o texto diz e o que não diz. Ester 3:4 dá como explicação para a recusa de Mardoqueu que ele “tinha declarado que era judeu”, e não cita Agague. Que Hamã descenda do rei de Amaleque é uma leitura da tradição judaica e de muitos comentaristas, e não uma afirmação do livro. O que ela explica bem é o passo seguinte: Hamã “teve como pouco… o pôr as mãos só em Mardoqueu” e procurou “destruir a todos os judeus” (3:6). O ódio pessoal virou projeto de extermínio de um povo.
Como o livro fala de Deus sem citar o nome dele?
A resposta está na forma. O livro conta uma sequência de inversões em que cada peça de Hamã acaba com Mardoqueu ou com Ester.
| O que Hamã tinha ou queria | Onde aparece | Quem fica com isso | Onde aparece |
|---|---|---|---|
| O anel do rei, com o poder de selar decretos | 3:10 | Mardoqueu | 8:2 |
| A veste real e o cavalo do rei, que ele achava serem para si | 6:6-9 | Mardoqueu, conduzido por Hamã pelas ruas | 6:10-11 |
| A forca de cinquenta côvados, feita para Mardoqueu | 5:14 | O próprio Hamã | 7:9-10 |
| As riquezas e a casa de Hamã | 5:11 | Ester | 8:1 |
| O dia 13 de Adar, escolhido por sorte para a matança | 3:7, 3:13 | O dia em que os judeus se defenderam | 9:1 |
A própria narrativa reconhece essa lógica quando os sábios de Hamã e a mulher dele, Zeres, dizem: “Se Mardoqueu, diante de quem já começaste a cair, é da descendência dos judeus, não prevalecerás contra ele, antes certamente cairás diante dele” (6:13). São pagãos falando, e o livro deixa que sejam eles a reconhecer o que está acontecendo. Em 4:14 Mardoqueu diz a Ester que, se ela se calar, “socorro e livramento de outra parte sairá para os judeus”. A expressão “de outra parte” indica ajuda que não vem da rainha, sem dizer de onde.
Por que a noite de insônia do rei em Ester 6:1 muda tudo?
Naquela mesma noite fugiu o sono do rei; então mandou trazer o livro de registro das crônicas, as quais se leram diante do rei.
Ester 6:1
Este é o versículo em que o livro vira. Hamã já mandou construir a forca (5:14) e vai ao palácio para pedir a morte de Mardoqueu. Só que, na noite anterior, o rei não dormiu e mandou ler as crônicas. A leitura chega, entre todas as páginas possíveis, ao registro de que Mardoqueu tinha denunciado o complô de Bigtã e Teres em 2:21-23. O rei pergunta o que se fez por ele, e a resposta é: “Coisa nenhuma se lhe fez” (6:3). Em seguida o rei pergunta quem está no pátio, e é Hamã.
Uma frase de insônia, uma leitura de registro e um homem no pátio na hora errada. O livro não põe nenhuma dessas coincidências na boca de Deus, e tampouco as explica. O leitor vê o encaixe sem que ninguém o nomeie.
Qual é o momento decisivo em Ester 4:14?
Porque, se de todo te calares neste tempo, socorro e livramento de outra parte sairá para os judeus, mas tu e a casa de teu pai perecereis; e quem sabe se para tal tempo como este chegaste a este reino?
Ester 4:14
A frase mais citada do livro costuma ser lida como certeza, e o texto a apresenta como pergunta: “quem sabe”. Antes dela, Ester recusa. Explica a Mardoqueu que quem se apresenta ao rei sem ser chamado só escapa se ele estender o cetro de ouro, e que ela não tinha sido chamada nos últimos trinta dias (4:11). A resposta de Mardoqueu não tenta garantir nada. Ele lembra que ela não escapará por estar no palácio e deixa a pergunta aberta.
A decisão de Ester vem em 4:16: “Vai, ajunta a todos os judeus que se acharem em Susã, e jejuai por mim, e não comais nem bebais por três dias… e se perecer, pereci”. O jejum de três dias é a prática religiosa que 4:16 descreve, e o texto não diz que orassem nessa ocasião. Em 9:31 o livro volta a mencionar o jejum, “acerca do jejum e do seu clamor”.
Por que o rei não podia revogar o decreto de Hamã?
A regra aparece duas vezes. Em 1:19, os conselheiros de Assuero dizem que o decreto sobre Vasti deve ser escrito “nas leis dos persas e dos medos, e não se revogue”. Em 8:8 o rei diz a Ester e Mardoqueu: “o documento que se escreve em nome do rei, e que se sela com o anel do rei, não se pode revogar”. Por isso o rei não desfaz o decreto de Hamã. Autoriza um segundo, escrito por Mardoqueu, que dá aos judeus o direito de “defenderem as suas vidas” contra quem os atacar (8:11).
O texto de 8:11 repete os mesmos verbos e a mesma lista de alvos do decreto de Hamã em 3:13: destruir, matar, aniquilar, “crianças e mulheres” e saquear os bens. Comentaristas discutem a quem “crianças e mulheres” se refere: às famílias dos atacantes ou, como leem outros, às dos próprios judeus, que os atacantes ameaçavam. E o capítulo 9 dá o resultado: “sucedeu o contrário, porque os judeus foram os que se assenhorearam dos que os odiavam” (9:1). Em Susã morrem quinhentos homens e os dez filhos de Hamã (9:6-10). Ester pede mais um dia e o enforcamento dos filhos (9:13), e no dia seguinte morrem mais trezentos (9:15). Nas províncias, setenta e cinco mil (9:16).
O capítulo é o que mais divide os leitores, e o texto não o comenta. Há um detalhe que muitos leem em ligação com Saul: três vezes o livro diz que, ao despojo, os judeus “não estenderam a sua mão” (9:10, 9:15, 9:16), embora o decreto os autorizasse a saquear (8:11). Em 1 Samuel 15:19 Samuel acusa Saul, em nome de Deus, de ter se lançado “ao despojo”. Muitos comentaristas veem em Ester um contraste deliberado: onde Saul falhou, os judeus se abstêm.
O que é Purim e de onde vem o nome?
“Pur” quer dizer “sorte”, e o livro traduz a palavra logo na primeira vez: “se lançou Pur, isto é, a sorte, perante Hamã” (3:7). A sorte escolheu o décimo segundo mês, Adar, e isso deu aos judeus quase um ano entre o decreto e a data marcada. A festa nasce disso: “Por isso aqueles dias chamam Purim, do nome Pur” (9:26). Mardoqueu ordena que sejam dias “de banquetes e de alegria, e de mandarem presentes uns aos outros, e dádivas aos pobres” (9:22). A sorte que Hamã lançou virou o nome da festa da sobrevivência.
Como fazer um estudo de Ester na prática
Leia os dez capítulos de uma vez e marque três coisas: os banquetes (o livro está cheio deles, de 1:3 a 9:19), as inversões da tabela acima e os momentos em que alguém “acha graça” diante do rei. Um estudo de Ester que acompanhe esses três fios mostra como a trama funciona sem depender de milagres visíveis. Depois leia Ester 4 com atenção ao jejum de três dias.
Para ver o que acontece com o mesmo rei em outro livro, leia o estudo de Esdras, que cita Assuero em 4:6. E para outro israelita a serviço de um rei estrangeiro, veja o estudo de Daniel.
Perguntas frequentes sobre Ester
Quem escreveu o livro de Ester?
O texto não cita o autor. Em 9:20 diz que “Mardoqueu escreveu estas coisas, e enviou cartas a todos os judeus”, o que a tradição relaciona ao registro dos fatos, mas o livro não afirma a autoria.
Por que o livro de Ester não menciona Deus?
Num estudo de Ester, essa é a pergunta mais comum, e ninguém sabe ao certo. Uma leitura comum é que o silêncio é intencional: o livro mostra a ação de Deus por meio de coincidências e inversões que o leitor percebe sem que o texto as nomeie.
Quem era Hamã?
O principal ministro do rei Assuero, exaltado “acima de todos os príncipes” (3:1) e chamado de “agagita”. Ele planejou destruir todos os judeus do reino e acabou enforcado na forca que fizera para Mardoqueu (7:10).
O que significa Purim?
É a festa que celebra a libertação dos judeus no tempo de Ester. O nome vem de “Pur”, palavra que o livro explica como “a sorte” (3:7, 9:26), lançada por Hamã para escolher o dia do extermínio.
Qual era o nome hebraico de Ester?
Hadassa (2:7). Ester foi criada por seu primo Mardoqueu, que “a tomara por sua filha”, e por orientação dele não declarou a sua origem (2:10).
Quem foi o rei Assuero?
Em um estudo de Ester, ele é o rei persa que reinou “desde a Índia até Etiópia, sobre cento e vinte e sete províncias” (1:1). A maioria dos estudiosos o identifica com Xerxes I, e ele é citado também em Esdras 4:6.
Quem faz os estudos bíblicos deste site?
Os textos são escritos por João Andrade, que estuda a Bíblia há mais de quinze anos. O método de trabalho e a trajetória dele estão na página do autor.
A noite em que o rei não dormiu
Ester 6:1 registra uma coisa pequena. Um rei acordado no meio da noite pede que leiam para ele o livro de registros do palácio, e a leitura chega ao registro de um favor que ninguém tinha retribuído (6:3).
Nada no versículo diz que aquela insônia foi enviada. O leitor chega sozinho a essa conclusão, e o livro nunca precisou escrever o nome de Deus para isso.