Estudo de Daniel: fidelidade na Babilônia e o reino que não passa

Um decreto acabava de transformar oração em crime capital, e a primeira coisa que Daniel fez ao saber foi subir ao quarto, abrir as janelas na direção de Jerusalém e orar de joelhos, como sempre fizera. Qualquer estudo de Daniel gira em torno dessa cena, porque ela concentra o tema do livro: como permanecer fiel a Deus dentro de um império que não o conhece. O estudo de Daniel é, por isso, um dos mais atuais da Bíblia para o cristão que trabalha, estuda e vive num mundo que não compartilha da sua fé.

Daniel, pois, quando soube que o edito estava assinado, entrou em sua casa (ora havia no seu quarto janelas abertas do lado de Jerusalém), e três vezes no dia se punha de joelhos, e orava, e dava graças diante do seu Deus, como também antes costumava fazer.
Daniel 6:10

Resumo

  • Daniel foi levado cativo para a Babilônia ainda jovem e serviu no governo por cerca de 70 anos, sob quatro reis e dois impérios.
  • O livro tem 12 capítulos em duas metades: histórias de fidelidade (1 a 6) e visões proféticas (7 a 12).
  • A tese do livro: os impérios passam, o reino de Deus permanece, e Deus governa até quem não o reconhece.
  • A fidelidade de Daniel começou na comida do capítulo 1, não na cova de leões do capítulo 6.
  • A visão do “filho do homem” no capítulo 7 é o título que Jesus mais usou para si mesmo.

Quem foi Daniel na Bíblia?

Daniel era um adolescente da nobreza de Judá quando Nabucodonosor sitiou Jerusalém e levou os melhores jovens para servir na Babilônia. O programa imperial era uma máquina de assimilação: novo nome, nova língua, nova literatura, nova comida, tudo desenhado para apagar a identidade anterior. Com Daniel, quase tudo funcionou. Ele aprendeu a língua, leu a literatura, aceitou até o nome pagão Beltessazar. Mas o texto registra onde ele fincou a estaca:

E Daniel propôs no seu coração não se contaminar com a porção das iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia; portanto pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não se contaminar.
Daniel 1:8

Repare no verbo: propôs no coração. A decisão veio antes da pressão, não durante. A leitura pastoral desse capítulo é direta: ninguém improvisa integridade na hora da crise. Daniel sobreviveu à cova dos leões aos oitenta e tantos anos porque decidiu sobre um cardápio aos dezesseis. E repare também no como: ele pediu permissão, propôs um teste, foi cortês. Fidelidade, no livro de Daniel, quase nunca grita; ela persiste.

Como se divide um estudo de Daniel?

O livro tem duas metades de gêneros diferentes, e boa parte da confusão em torno dele vem de ignorar essa divisão.

Capítulos 1 a 6, as narrativas: a comida do rei, a estátua do sonho, a fornalha, a loucura de Nabucodonosor, a festa de Belsazar, a cova dos leões. Histórias na terceira pessoa sobre fidelidade sob pressão.

Capítulos 7 a 12, as visões: os quatro animais, o carneiro e o bode, as setenta semanas, a grande visão final. Profecia apocalíptica na primeira pessoa, com anjos interpretando símbolos.

Vale notar que a metade “difícil” repete a mensagem da metade “fácil” em outra linguagem. O que a cova dos leões conta como história, a visão dos quatro animais anuncia como profecia: impérios se sucedem, todos ferozes, todos temporários, e o veredito final pertence a Deus.

Mas, nos dias desses reis, o Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído; e este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos esses reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre.
Daniel 2:44

O que a fornalha ensina sobre fé madura?

A resposta dos três amigos de Daniel diante da fornalha contém a frase mais corajosa do livro, e talvez a mais mal lida:

Eis que o nosso Deus, a quem nós servimos, é que nos pode livrar; ele nos livrará da fornalha de fogo ardente, e da tua mão, ó rei. E, se não, fica sabendo ó rei, que não serviremos a teus deuses nem adoraremos a estátua de ouro que levantaste.
Daniel 3:17-18

O centro da frase é o “e, se não”. Eles creem no livramento e não condicionam a obediência a ele. Essa é a diferença entre fé e barganha: a barganha serve a Deus pelos resultados, a fé serve a Deus mesmo sem eles. Muita frustração espiritual nasce de uma fé que só conhecia a primeira metade da frase. Quem quiser ver como esse mesmo padrão aparece na cova dos leões, com detalhes que costumam passar despercebidos, o artigo sobre o que aconteceu antes da cova dos leões percorre o capítulo 6 cena por cena.

Quem é o filho do homem de Daniel 7?

No capítulo 7, depois dos quatro impérios retratados como feras, Daniel vê outra figura, e ela não sobe do mar como os animais, ela vem do céu:

Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha nas nuvens do céu um como o filho do homem; e dirigiu-se ao ancião de dias, e o fizeram chegar até ele. E foi-lhe dado o domínio, e a honra, e o reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará.
Daniel 7:13-14

“Filho do homem” foi o título que Jesus mais usou para si mesmo, mais de oitenta vezes nos evangelhos, e a fonte é este texto. Quando o sumo sacerdote perguntou se ele era o Cristo, Jesus respondeu citando Daniel 7, e foi essa citação que o tribunal chamou de blasfêmia. Quem entende Daniel 7 entende o julgamento de Jesus: ele não morreu por ser um mestre de moral, morreu por reivindicar ser o homem que recebe o reino eterno.

Perguntas frequentes sobre Daniel

Quem escreveu o livro de Daniel?

O livro se apresenta como registro de Daniel, que viveu na Babilônia do cativeiro até o início do império persa. Parte do livro foi escrita em hebraico e parte em aramaico, a língua franca do império, o que combina com um autor bilíngue da corte.

Daniel é história ou profecia?

Os dois, pela própria estrutura: seis capítulos narrativos e seis proféticos. A metade profética usa o gênero apocalíptico, cheio de símbolos, que os capítulos seguintes e o próprio anjo interpretam em parte.

Quais são os quatro reinos da estátua e das feras?

A leitura mais tradicional identifica Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma, com o reino de Deus como a pedra que esmiúça a estátua. Há variações entre estudiosos, e o ponto teológico não muda: todos os impérios passam, o de Deus fica.

O que são as setenta semanas de Daniel 9?

Uma profecia sobre o tempo entre a ordem de reconstruir Jerusalém e a obra do Messias. É um dos textos mais debatidos da Bíblia; o consenso cristão histórico é que as semanas apontam para a vinda e a morte do Ungido.

Por onde começar um estudo de Daniel?

Pelos capítulos 1, 3 e Daniel 6, que formam o núcleo das narrativas de fidelidade. Depois, o capítulo 2 e o 7, que abrem a chave profética do livro. Os demais ganham sentido a partir desses cinco.

Qual estudo combina com Daniel?

O estudo de Apocalipse, que retoma as imagens de Daniel (as feras, o filho do homem, o reino eterno) e as leva à consumação. Um livro é a semente do outro.

Fidelidade de janelas abertas

Daniel envelheceu num império que não compartilhava da sua fé, serviu com excelência a reis pagãos, e nunca escondeu de quem era servo de verdade. As janelas abertas do capítulo 6 não eram provocação, eram continuidade: ele orava assim antes do decreto, orou assim durante, e o texto faz questão de dizer “como também antes costumava fazer”.

O livro promete que essa vida deixa rastro:

Os que forem sábios, pois, resplandecerão como o fulgor do firmamento; e os que a muitos ensinam a justiça, como as estrelas sempre e eternamente.
Daniel 12:3

A Babilônia de Daniel caiu numa noite de festa. A oração das janelas abertas atravessou dois mil e quinhentos anos e chegou até a sua tela. É esse o placar final entre os impérios e a fidelidade, e é bom decidir de que lado da janela se quer viver antes que algum decreto pergunte.

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