Se você lê o Evangelho de Mateus e sente que ele repete a mesma frase o tempo todo, “para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta”, há um motivo. Um estudo de Mateus percebe cedo que o livro inteiro é um argumento único: a história de Israel, do Antigo Testamento, apontava para este homem. Não à toa, o primeiro capítulo dá ao menino o nome Emanuel, “Deus conosco”, e o último versículo tem Jesus dizendo “eu estou convosco todos os dias”. Os vinte e oito capítulos existem para ligar essas duas pontas.
Mateus é o primeiro livro do Novo Testamento e, por séculos, foi o evangelho mais lido e mais ensinado da igreja. É o texto que traz o Sermão do Monte, o Pai Nosso na sua forma mais conhecida, a parábola do joio, as bem-aventuranças e a Grande Comissão. Foi escrito para um público de origem judaica, e a preocupação central do autor é mostrar que Jesus não rompe com a história de Israel, ele a leva ao seu destino.
Resumo
- Mateus apresenta Jesus como o cumprimento das Escrituras hebraicas, com mais de dez citações do tipo “para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta”.
- O material de ensino de Jesus está organizado em cinco grandes discursos, cada um encerrado com a mesma fórmula.
- O evangelho usa “reino dos céus” onde Marcos e Lucas usam “reino de Deus”, por respeito judaico ao nome divino.
- A missão começa restrita a “as ovelhas perdidas da casa de Israel” e termina aberta a “todas as nações”.
- É o único evangelho que usa a palavra “igreja”, em Mateus 16 e 18.
O que é o Evangelho de Mateus?
Mateus é um dos quatro evangelhos, o relato da vida, ensino, morte e ressurreição de Jesus atribuído ao apóstolo Mateus, o cobrador de impostos que Jesus chama em 9:9. A tradição da igreja antiga liga o livro a ele. O evangelho foi escrito provavelmente entre os anos 70 e 85, para uma comunidade cristã de maioria judaica, possivelmente em Antioquia.
A marca do livro é o diálogo constante com o Antigo Testamento. Mateus abre com uma genealogia que vai de Abraão a Jesus, organizada em três blocos de catorze gerações, e inclui quatro mulheres de história incomum: Tamar, Raabe, Rute e “a que foi mulher de Urias”. A escolha é deliberada. O autor sinaliza desde a primeira página que a linhagem do Messias passa por estrangeiros e por episódios que ninguém contaria com orgulho.
Por que Mateus organiza o ensino em cinco discursos?
Um estudo de Mateus bem feito identifica a espinha dorsal do livro. Cinco vezes o texto reúne um bloco grande de ensino de Jesus e o fecha com a mesma frase, “quando Jesus concluiu estas palavras” ou equivalente (7:28; 11:1; 13:53; 19:1; 26:1). Os cinco discursos são:
| Discurso | Capítulos | Tema |
|---|---|---|
| Sermão do Monte | 5 a 7 | A justiça do reino, mais profunda que a dos escribas |
| Discurso da missão | 10 | Envio dos doze, custo de seguir Jesus |
| Parábolas do reino | 13 | O reino dos céus em sete comparações |
| Discurso da comunidade | 18 | Humildade, disciplina e perdão entre irmãos |
| Discurso do fim | 24 e 25 | A queda do templo, a volta de Cristo, o juízo |
A leitura tradicional vê aí um paralelo com os cinco livros de Moisés. Mateus estrutura o ensino de Jesus como uma nova Torá, e mais cedo apresenta o menino sendo tirado do Egito e passando por águas e por um deserto, ecos da história de Israel. O objetivo não é substituir Moisés por rivalidade, e sim mostrar quem Moisés apontava.
Por que Mateus cita tanto o Antigo Testamento?
Mais de dez vezes o narrador interrompe a ação para dizer que algo aconteceu “para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta”. O nascimento em Belém, a fuga para o Egito, a residência em Nazaré, a entrada em Jerusalém sobre um jumentinho, o silêncio diante dos acusadores, tudo é ancorado num texto anterior.
Vale notar o que “cumprir” significa aqui. Não é só uma previsão que se realiza como um horário de trem. Mateus lê a história de Israel inteira, seus personagens, seu êxodo, seu exílio, como um padrão que encontra em Jesus a sua forma final. Quando ele cita “Do Egito chamei o meu Filho”, frase que Oséias escreveu sobre a nação de Israel, ele está dizendo que Jesus revive e completa o caminho do povo. O evangelho é, do começo ao fim, um argumento de que as Escrituras hebraicas conduziam a este homem.
O que é o Sermão do Monte em Mateus?
O primeiro dos cinco discursos, nos capítulos 5 a 7, é o trecho mais conhecido de todo o livro. Começa com as bem-aventuranças, uma lista que declara felizes justamente os que a lógica do mundo não escolheria: os pobres de espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome de justiça, os perseguidos. Em seguida vêm as imagens do sal e da luz, os seis contrastes sobre a lei, o ensino sobre esmola, oração e jejum feitos em segredo, e o Pai Nosso na forma em que a maioria das igrejas o reza.
Mateus 6:33
Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.
O sermão fecha com três imagens de decisão: a porta estreita, a árvore e seus frutos, e o homem que ouve as palavras e as pratica, comparado a quem constrói sobre a rocha. Repare no detalhe que Mateus registra no fim: a multidão se admirou “porque os ensinava como tendo autoridade, e não como os escribas” (7:29). O Sermão do Monte não funciona como uma coleção de conselhos avulsos. Ele descreve como se vive dentro do reino que Jesus anuncia.
“Não vim ab-rogar, mas cumprir”: o que Mateus diz sobre a Lei
No Sermão do Monte, Jesus faz uma declaração que só aparece com essa força em Mateus:
Mateus 5:17
Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir.
Em seguida vêm seis contrastes na forma “ouvistes que foi dito aos antigos, eu porém vos digo”. Jesus não abole “não matarás”, ele o leva à raiz, a ira; não abole “não adulterarás”, ele o leva ao olhar. A justiça do reino, diz o texto, precisa “exceder a dos escribas e fariseus” (5:20), não por ser mais rigorosa em regras, mas por alcançar o coração. Duas vezes Mateus registra Jesus citando Oséias, “misericórdia quero, e não sacrifício” (9:13; 12:7), contra uma religião que acerta o ritual e erra a pessoa. Esse é um dos fios mais constantes do livro.
De “ovelhas perdidas de Israel” a “todas as nações”
No capítulo 10, Jesus envia os doze com uma instrução clara: “não ireis pelo caminho dos gentios, nem entrareis em cidade de samaritanos, mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel”. No capítulo 15 ele repete que foi enviado “senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”. O foco inicial é o povo da aliança.
O livro então se abre. A mulher cananeia recebe cura e o elogio “grande é a tua fé” (15:28). O centurião romano ouve que “nem mesmo em Israel encontrei tanta fé” (8:10). E o evangelho termina com a ordem que inverte a instrução do capítulo 10:
Mateus 28:19
Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.
A leitura comum trata a Grande Comissão como um versículo isolado sobre missões. Dentro de Mateus, ela é o desfecho de um movimento que atravessa o livro inteiro, de Israel para o mundo, sem abandonar Israel no caminho.
Por que só Mateus usa a palavra “igreja”?
Mateus é o único evangelho que usa o termo “igreja”, e em dois momentos. O primeiro é a confissão de Pedro em Cesareia de Filipe:
Mateus 16:18
Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.
O segundo é o capítulo 18, com instruções práticas sobre como tratar um irmão que peca: conversar a sós, depois com testemunhas, depois “dize-o à igreja”. Vale notar a diferença de tom. O capítulo 16 fala da igreja como algo que Jesus constrói e que dura. O capítulo 18 fala dela como uma comunidade concreta, que precisa resolver conflitos e perdoar “setenta vezes sete”. Mateus mantém as duas coisas juntas, a promessa e a rotina.
O que Mateus acrescenta na paixão e na ressurreição?
Os quatro evangelhos contam a prisão, o julgamento, a cruz e o túmulo vazio, mas cada um tem detalhes próprios. Um estudo de Mateus nota o que só ele registra. Pilatos lava as mãos diante da multidão e declara: “estou inocente do sangue deste justo” (27:24). No momento da morte de Jesus, a terra treme, as pedras se fendem e sepulcros se abrem (27:51-52). E há a história dos guardas: os líderes selam o túmulo e põem soldados (27:62-66), e depois pagam a esses mesmos soldados para dizerem que os discípulos roubaram o corpo (28:11-15). Mateus escreve isso para responder a uma acusação que circulava na sua época.
Sobre 27:25, o verso em que a multidão diz “o seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos”, vale um alerta. A frase descreve a reação de uma multidão específica num momento específico, e foi usada de forma indevida ao longo da história para culpar todo o povo judeu. O próprio Mateus, judeu escrevendo para judeus, não a lê assim. A ressurreição, então, acontece com um terremoto e um anjo, e as primeiras testemunhas são mulheres. O encontro final é num monte da Galileia, onde Jesus dá a Grande Comissão a onze homens, “e alguns duvidaram” (28:17), detalhe que Mateus não esconde.
Como fazer um estudo de Mateus na prática
São vinte e oito capítulos, cerca de duas horas de leitura. Leia o livro inteiro numa ou duas sentadas antes de recortar. Na releitura, marque as cinco fórmulas de encerramento dos discursos, elas dividem o livro em blocos naturais. Marque também toda vez que aparecer “para que se cumprisse”, e compare a citação com o texto do Antigo Testamento que ela aponta.
Um plano de oito semanas: capítulos 1 a 4 (genealogia, infância, batismo, tentação), 5 a 7 (Sermão do Monte), 8 a 10 (milagres e o envio dos doze), 11 a 13 (rejeição e parábolas do reino), 14 a 18 (a confissão de Pedro e a vida da comunidade), 19 a 23 (a caminho de Jerusalém e os confrontos), 24 e 25 (o discurso do fim), 26 a 28 (paixão, cruz e ressurreição). Leia cada bloco na Bíblia online. Como Mateus, Marcos e Lucas contam muitas cenas em comum, vale comparar com o estudo de Marcos, que é mais curto e provavelmente anterior. E o estudo de Gênesis ajuda a reconhecer os ecos do começo de Israel que Mateus coloca na infância de Jesus.
Perguntas frequentes sobre o Evangelho de Mateus
Quem escreveu o Evangelho de Mateus?
A tradição da igreja antiga atribui o livro ao apóstolo Mateus, o cobrador de impostos chamado por Jesus em Mateus 9:9. O texto em si não nomeia o autor.
Mateus foi o primeiro evangelho escrito?
Ele aparece primeiro no Novo Testamento, mas a maioria dos estudiosos entende que Marcos foi escrito antes, e que Mateus usou Marcos como uma de suas fontes, somando material próprio e ensinos que compartilha com Lucas.
Por que Mateus fala em “reino dos céus” e não “reino de Deus”?
É a mesma realidade. Escrevendo para leitores judeus, que evitavam pronunciar o nome de Deus, Mateus usa “céus” como forma reverente de dizer “de Deus”. Marcos e Lucas, com público mais amplo, usam “reino de Deus”.
Quais são os cinco discursos de Mateus?
Sermão do Monte (5 a 7), discurso da missão (10), parábolas do reino (13), discurso da comunidade (18) e discurso sobre o fim (24 e 25). Cada um termina com a frase “quando Jesus concluiu estas palavras” ou equivalente.
Mateus 16:18 prova o papado?
O versículo diz que Jesus edificaria a igreja “sobre esta pedra”, ligada a Pedro e à sua confissão de que Jesus é o Cristo. A interpretação de que isso institui uma sucessão de líderes em Roma é debatida entre as tradições cristãs e não está explícita no texto.
Qual é o versículo-chave de Mateus?
Mateus 28:19-20, a Grande Comissão, é o clímax do livro. O 5:17, sobre cumprir a lei e os profetas, resume o propósito do evangelho.
Quem faz os estudos bíblicos deste site?
Os textos são escritos por João Andrade, que estuda a Bíblia há mais de quinze anos. O método e a trajetória estão na página do autor.
Deus conosco, do começo ao fim
Volte às duas frases que abrem e fecham o livro. No capítulo 1, um anjo fala com um carpinteiro assustado e dá ao menino o nome de “Deus conosco”. Vinte e sete capítulos depois, num monte da Galileia, o mesmo menino, agora ressuscitado, diante de onze homens que ainda duvidavam, diz “eu estou convosco todos os dias”. Mateus não escreveu um manual de doutrina nem uma biografia neutra. Ele emoldurou toda a vida de Jesus entre uma promessa e o seu cumprimento, e deixou o leitor exatamente onde deixou os onze: convidado a ir, com a companhia garantida.