Um estudo de Cantares costuma esbarrar numa dúvida antes da primeira página: por que um livro de poemas de amor, sem o nome de Deus em nenhum versículo da ACF, está na Bíblia? O livro, também chamado de Cântico dos Cânticos ou Cantares de Salomão, tem uma pista que resolve boa parte dessa dúvida: quase tudo depende de quem está falando em cada trecho.
Este estudo de Cantares de Salomão mostra como reconhecer a voz dela e a voz dele mesmo lendo em português, compara as três formas de ler o livro e explica o refrão “até que queira”, que aparece três vezes e quase sempre é citado fora do lugar.
Resumo
- Cantares tem oito capítulos de poemas de amor entre uma mulher e um homem, atribuídos a Salomão (1:1), e não traz “Deus” nem “SENHOR” em nenhum versículo da ACF.
- A voz dela abre o livro (1:2), fecha o livro (8:14) e pronuncia o refrão de 2:7, 3:5 e 8:4. Na maioria das contagens, é ela quem mais fala.
- Há três leituras tradicionais: alegórica (Deus e o povo, Cristo e a Igreja), literal (amor conjugal) e dramática (com um rei rival ao fundo), e cada uma tem apoio em versículos e um limite.
- O livro inclui ausência e dor: em 3:1-4 e em 5:2-8 ela procura o amado à noite e não o encontra, e no segundo episódio os guardas a espancam.
- Em 8:6-7 o amor é comparado à morte e ao fogo, e em 6:8-9 e 8:11-12 o livro contrasta esse amor com o harém e a riqueza de Salomão.
Por que um livro sem o nome de Deus está na Bíblia?
O título de 1:1, “Cântico dos cânticos, que é de Salomão”, usa uma forma hebraica de superlativo, como “Rei dos reis”: é o melhor dos cânticos. O primeiro livro dos Reis diz de Salomão: “e foram os seus cânticos mil e cinco” (1 Reis 4:32), então este seria o melhor entre mais de mil. Em 1:1 a preposição “de” pode significar autoria, dedicatória ou tema, e por isso a discussão sobre o autor continua aberta.
Sobre a ausência de Deus, o que se pode dizer com segurança é que a ACF não traz o nome em nenhum dos oito capítulos. Alguns estudiosos leem a palavra “labaredas” de 8:6 como “chama do SENHOR” no hebraico, mas essa leitura é discutida e o texto em português não a mostra. O que a Bíblia diz em outros lugares ajuda a situar o livro: Provérbios 5:18-19 aconselha o homem a se alegrar “com a mulher da tua mocidade” com imagens que lembram as de Cantares, e o próprio texto bíblico trata o desejo dentro do casamento como algo bom.
Quem fala em Cantares?
Nas versões em português não há marcas de quem fala, e é aí que muita leitura se perde. O hebraico distingue masculino e feminino, e a tradução dilui essa diferença. Mesmo assim, o português deixa uma pista prática: quando o texto diz “o meu amado”, quem fala é ela. Quando diz “minha irmã, esposa minha” ou “pomba minha”, é ele.
| Voz | Como reconhecer | Exemplos |
|---|---|---|
| Ela | Fala do “meu amado” e se dirige às filhas de Jerusalém | 1:2-4, 2:8-9, 5:2-8, 8:14 |
| Ele | Chama-a de “meu amor”, “pomba minha” e “minha irmã, esposa minha” | 1:15, 2:10-14, 4:1-15 |
| As filhas de Jerusalém | Fazem perguntas sobre o amado e ouvem o refrão dela | 5:9, 6:1, 6:13 |
Com essa pista, dá para notar que a voz dela abre o livro (“Beije-me ele com os beijos da sua boca”, 1:2) e o fecha (“Vem depressa, amado meu”, 8:14). Na maioria das contagens ela fala mais do que ele, e boa parte do tempo é ela quem toma a iniciativa. É uma característica pouco comum nos livros da Bíblia, e ajuda a entender o tom de tudo o que vem no meio.
Alegoria, amor literal ou drama? As três formas de ler o livro
As três leituras convivem há séculos, e cada uma tem um argumento sólido e um limite.
| Leitura | O que propõe | O que a sustenta | Limite |
|---|---|---|---|
| Alegórica | O amor do livro é imagem de Deus e seu povo, ou de Cristo e da Igreja | Efésios 5:31-32 aplica a união do casal a Cristo e à Igreja | Descrições do corpo como as de 4:1-5 exigem alegoria detalhe por detalhe, o que fica forçado |
| Literal | São poemas sobre o amor conjugal entre um homem e uma mulher | Provérbios 5:18-19, Gênesis 2:24 e o “esposa” de 4:8-12 | Não explica sozinha por que judeus e cristãos leram o livro também como imagem de Deus |
| Dramática | Há uma jovem, o amado dela e um rei (Salomão) que tenta conquistá-la | 6:8-9 e 8:11-12, onde ela se distingue do rei | O texto não marca a troca de personagens, e é leitura minoritária |
A leitura comum escolhe uma das três e descarta as outras. O texto sustenta partes de todas. A maior parte do livro se lê como poesia literal do amor entre duas pessoas. Ao mesmo tempo, o Novo Testamento usa o casamento como imagem de Cristo e da Igreja em Efésios 5:32, e isso dá base para a leitura alegórica, sem exigir que cada versículo seja alegoria. Quem quiser ver essa passagem de Paulo por inteiro pode abrir o estudo de Efésios.
O que o refrão “até que queira” diz de fato?
Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, pelas gazelas e cervas do campo, que não acordeis nem desperteis o meu amor, até que queira.
Cantares 2:7
A frase aparece em 2:7 e 3:5 e, quase igual, em 8:4. Costuma ser citada como conselho para esperar o momento certo do amor. Vale notar quem fala e a quem: é ela, dirigindo-se às filhas de Jerusalém, e o pedido é que não a acordem. A aplicação de esperar é possível, mas o pedido literal do texto é que ninguém force o amor a acordar. Em 5:8 ela usa a mesma fórmula de conjuração com outro pedido (“se achardes o meu amado, lhe digais que estou enferma de amor”), e o refrão passa a servir de recado.
Por que ela procura o amado à noite, duas vezes?
O livro também tem ausência e dor. Em 3:1 ela diz: “De noite, em minha cama, busquei aquele a quem ama a minha alma; busquei-o, e não o achei”. Ela levanta, percorre as ruas, pergunta aos guardas e o encontra. No segundo episódio, em 5:2, é ele quem bate à porta, e ela hesita: “Já despi a minha roupa; como as tornarei a vestir?” (5:3). Quando abre, “o meu amado tinha se retirado, e tinha ido” (5:6). Desta vez os guardas que a encontram “espancaram-me, feriram-me, tiraram-me o manto” (5:7).
Muitos comentaristas leem as duas cenas como sonhos, porque 5:2 começa com “Eu dormia, mas o meu coração velava”. Sonho ou não, o que interessa é que o livro inclui a ausência do amado e o custo de procurá-lo. Por isso a pergunta das filhas de Jerusalém em 5:9, “Que é o teu amado mais do que outro amado?”, tem resposta longa: os versículos 10 a 16 são a resposta dela.
O que Cantares 8:6-7 diz sobre o amor?
Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam.
Cantares 8:6-7
O selo era o que identificava o dono de um documento, e por isso o pedido é de pertencimento. Ser forte como a morte quer dizer que, como ela, o amor não se deixa vencer por nada que tente desfazê-lo, nem pelas muitas águas nem pelos rios. E o último trecho, “ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor”, já prepara a cena do rei que aparece logo depois, em 8:11-12.
Em 8:11-12, Salomão tem uma vinha entregue a guardas que lhe rendem mil peças de prata cada um. Ela responde: “A minha vinha, que me pertence, está diante de mim; as mil peças de prata são para ti, ó Salomão”. Junto com 6:8-9 (“Sessenta são as rainhas, e oitenta as concubinas… Porém uma é a minha pomba”), uma leitura possível é que o livro contrasta o amor exclusivo com o harém do rei, que 1 Reis 11:3 fixa em “setecentas mulheres, princesas, e trezentas concubinas”. Neste caso o livro atribuído a Salomão guarda uma fala que o contradiz. É leitura que nem todos os comentaristas aceitam, e por isso vale testá-la no texto.
Como fazer um estudo de Cantares na prática
Leia o livro inteiro em uma sentada, com dois lápis de cores diferentes: um para os trechos dela e outro para os dele, usando a pista do “meu amado” e do “minha irmã, esposa minha”. Um estudo de Cantares que marque as vozes mostra o desenho do livro, que a leitura corrida esconde. Depois leia Cantares 8 separadamente, pois o capítulo reúne o refrão, o selo e a vinha.
Para conhecer o autor tradicional e o contexto, leia o perfil de Salomão, e para comparar a linguagem do amor conjugal com a de Provérbios 5, veja o estudo de Provérbios.
Perguntas frequentes sobre Cantares
Quem escreveu Cantares?
A tradição atribui o livro a Salomão, por causa de 1:1 e de 1 Reis 4:32, que diz que ele compôs mil e cinco cânticos. O “de Salomão” do título pode significar autoria, dedicatória ou tema, e por isso a questão é discutida.
Cantares fala de Deus?
O texto da ACF não traz o nome de Deus em nenhum versículo. Quem o lê como imagem do amor de Deus pelo povo ou de Cristo pela Igreja se apoia em passagens como Efésios 5:32, e não em uma menção direta.
Cantares é sobre Cristo e a Igreja?
É uma das leituras tradicionais, ao lado da literal e da dramática. Efésios 5:31-32 usa o casamento como imagem de Cristo e da Igreja, mas isso não obriga a ler cada versículo como alegoria.
O que significa “Cântico dos Cânticos”?
É uma forma hebraica de superlativo, como “Rei dos reis”. Significa o melhor dos cânticos, o mais excelente entre os cânticos de Salomão.
O que significa “não acordeis nem desperteis o meu amor”?
É o refrão de 2:7, 3:5 e 8:4, dito por ela às filhas de Jerusalém. O pedido é que não perturbem o momento do amor “até que queira”, e muitos o aplicam como conselho de esperar o tempo certo.
Cantares é um livro erótico?
Usa imagens fortes do desejo, como as de 4:1-5 e 7:1-9, sempre em contexto de casamento: o homem a chama de “esposa” em 4:8-12 e em 5:1. A tradição judaica e cristã o leu com respeito, e a leitura pede o mesmo cuidado.
Quem faz os estudos bíblicos deste site?
Os textos são escritos por João Andrade, que estuda a Bíblia há mais de quinze anos. O método de trabalho e a trajetória dele estão na página do autor.
A última fala do livro
O livro não termina com um beijo nem com um casamento. Termina com um pedido dela: “Vem depressa, amado meu, e faze-te semelhante ao gamo ou ao filho dos veados sobre os montes dos aromas” (8:14). A primeira fala do livro foi um desejo, a última é um convite, e nenhuma das duas recebe resposta escrita.
Quem lê o livro como imagem de Cristo e da Igreja ouve aqui o eco do último pedido da Bíblia: “Ora vem, Senhor Jesus” (Apocalipse 22:20). Quem o lê como poesia do amor conjugal reconhece a espera de quem chama alguém que ainda não chegou.