Um estudo de Neemias costuma girar em torno do muro de Jerusalém, que ficou pronto em 52 dias (6:15). O que os resumos raramente contam é o que vem depois: o livro só termina no capítulo 13, e ali Neemias encontra quebrados alguns dos votos que o povo tinha jurado no capítulo 10, justamente enquanto ele estava fora.
Este estudo de Neemias acompanha a oração de meses que antecede o pedido ao rei, a lista do capítulo 3, as duas frentes de oposição (a de fora e a de dentro), o versículo 8:10 no contexto em que foi dito e o que exatamente quebrou no capítulo 13. Quem procura o lado de gestão do livro pode ler as lições de liderança de Neemias, que tratam do assunto por outro ângulo.
Resumo
- Neemias é a memória em primeira pessoa do copeiro do rei Artaxerxes que reconstruiu o muro de Jerusalém e depois conduziu a renovação da aliança (1:1, 1:11).
- O livro tem duas partes: os capítulos 1 a 7 tratam do muro, e os capítulos 8 a 13 tratam da leitura da lei, da confissão, das promessas e das reformas.
- A crise mais séria da obra foi interna: as dívidas e a escravização de filhos entre os próprios judeus (capítulo 5).
- “A alegria do SENHOR é a vossa força” (8:10) foi dito a um povo que chorava ao ouvir a lei explicada.
- Quando Neemias regressa de uma viagem ao rei, encontra quebrados os compromissos sobre casamentos, sábado e levitas (13:10-29), e o livro termina com “lembra-te de mim”.
Quem foi Neemias e como o livro se divide?
“As palavras de Neemias, filho de Hacalias” (1:1). O livro é escrito na primeira pessoa, e o autor se apresenta pelo cargo no fim do primeiro capítulo: “Então era eu copeiro do rei” (1:11). Estava em Susã, a fortaleza persa onde se passa também a história de Ester, no “ano vigésimo” de Artaxerxes (2:1), que a cronologia usual situa por volta de 445 a.C. Ele foi governador de Judá por doze anos, “desde o ano vinte, até ao ano trinta e dois do rei Artaxerxes” (5:14). O estudo de Esdras mostra o mesmo mundo persa e o sacerdote que aparece ao lado de Neemias em 8:9 e em 12:36.
Por que Neemias esperou meses antes de pedir ao rei?
O livro abre no mês de Quislev, quando Hanani traz notícias de Jerusalém: “o muro de Jerusalém fendido e as suas portas queimadas a fogo” (1:3). Do mês de Quislev ao de Nisã do calendário hebraico passam-se cerca de quatro meses, e é em Nisã que Neemias está diante do rei (2:1). O texto não diz o que ele fez no intervalo, mas a oração de 1:5-11 fala em “dia e noite” (1:6) e traz uma frase que quase ninguém cita: “também eu e a casa de meu pai temos pecado”. Ele se inclui na confissão. O capítulo 1 termina com o pedido “dá-lhe graça perante este homem”, e a explicação vem em seguida: “Então era eu copeiro do rei”.
Quando a hora chega, o rei percebe a tristeza dele (“eu nunca estivera triste diante dele”, 2:1) e pergunta o que ele quer. A resposta é curta: “Então orei ao Deus dos céus, e disse ao rei” (2:4-5). A oração de uma frase entre a pergunta e a resposta vem depois de um período longo de oração, e o pedido já estava pronto: um prazo (“apontando-lhe eu um certo tempo”, 2:6), cartas para os governadores (2:7) e madeira das florestas do rei (2:8). Vale notar que a oração do capítulo 1 e o plano do capítulo 2 não competem entre si.
Quem construiu cada porta do muro?
O capítulo 3 parece uma lista de nomes, mas tem estrutura. Começa e termina no mesmo lugar: os sacerdotes constroem a porta das Ovelhas e a consagram (3:1), e no último versículo ourives e mercadores fecham o circuito entre a câmara do canto e a porta das Ovelhas (3:32). O muro começa nas mãos de quem cuida do altar e termina nas de quem lida com dinheiro.
| Trecho | Quem reparou | Detalhe do texto |
|---|---|---|
| Porta das Ovelhas | Eliasibe, o sumo sacerdote, e os sacerdotes (3:1) | “a qual consagraram” |
| Porta do Peixe | Os filhos de Hassenaá (3:3) | Com portas, fechaduras e ferrolhos |
| Trecho dos tecoítas | Os moradores de Tecoa (3:5) | “os seus nobres não submeteram a cerviz ao serviço de seu senhor” |
| Trecho de Salum | “ele e suas filhas” (3:12) | Líder da outra metade de Jerusalém |
| Porta do Vale | Hanum e os moradores de Zanoa (3:13) | Mais mil côvados do muro, até a porta do Monturo |
| Outro trecho dos tecoítas | Os tecoítas outra vez (3:27) | Mais uma porção (o texto não cita os nobres) |
| Porta dos Cavalos | Os sacerdotes (3:28) | “cada um defronte da sua casa” |
| Da câmara do canto à porta das Ovelhas | Ourives e mercadores (3:32) | O último trecho da lista |
Três detalhes merecem atenção. Vários constroem “defronte da sua casa” (3:10, 3:23, 3:28, 3:29), o que sugere que cada família cuidou do trecho que protegia o próprio lar. Baruque é o único citado por ter reparado “com grande ardor” (3:20). E Tecoa, a cidade de Amós, aparece duas vezes: os nobres se recusam a servir (3:5), e os tecoítas aparecem reparando dois trechos (3:5, 3:27).
Como Neemias enfrentou a oposição de fora e a de dentro?
De fora, a resistência vem em ondas. Sambalate escarnece: “Que fazem estes fracos judeus?” (4:2). Tobias completa: “vindo uma raposa, derrubará facilmente o seu muro de pedra” (4:3). A resposta do livro é prática: “oramos ao nosso Deus e pusemos uma guarda contra eles, de dia e de noite” (4:9), e os trabalhadores passam a construir “com uma das mãos” e a segurar as armas “na outra” (4:17). Mais tarde, chegam cinco convites para se encontrar com ele, o primeiro no vale de Ono (6:2-5), e a resposta às quatro primeiras vezes é a mesma: “Faço uma grande obra, de modo que não poderei descer” (6:3). O muro se acaba “aos vinte e cinco do mês de Elul; em cinqüenta e dois dias” (6:15).
De dentro, a crise vem no meio do livro, entre a oposição do capítulo 4 e a do capítulo 6. O capítulo 5 abre com “grande o clamor do povo e de suas mulheres, contra os judeus, seus irmãos” (5:1): terras hipotecadas em tempo de fome e filhos entregues como servos (“sujeitamos nossos filhos e nossas filhas para serem servos”, 5:5). Lembra a denúncia de Amós 2:6, sobre vender “o necessitado por um par de sapatos”.
A ordem dos verbos de 5:6-7 mostra o método: “muito me indignei. E considerei comigo mesmo no meu coração; depois pelejei com os nobres”. A indignação vem primeiro, depois a reflexão, e só então a confrontação. E ele se inclui na acusação: “Também eu, meus irmãos e meus servos, a juros lhes temos emprestado dinheiro e trigo. Deixemos este ganho” (5:10). Nos doze anos de governo, recusou o pão do governador “por causa do temor de Deus” (5:14-15).
O que a “alegria do SENHOR é a vossa força” quer dizer em Neemias 8:10?
Disse-lhes mais: Ide, comei as gorduras, e bebei as doçuras, e enviai porções aos que não têm nada preparado para si; porque este dia é consagrado ao nosso Senhor; portanto não vos entristeçais; porque a alegria do SENHOR é a vossa força.
Neemias 8:10
A leitura comum de 8:10 o trata como energia para dias difíceis. O contexto mostra outra coisa. No sétimo mês, o povo se ajunta “como um só homem” na praça e pede a Esdras que traga o livro da lei (8:1). A leitura vai “desde a alva até ao meio dia” (8:3), e os levitas explicam: “declarando, e explicando o sentido, faziam que, lendo, se entendesse” (8:8). O povo chora ao ouvir (8:9), e é para esse povo que Neemias diz o versículo acima.
A alegria de 8:10 nasce de entender, como mostra 8:12: “porque entenderam as palavras que lhes fizeram saber”. E vem com uma instrução concreta, mandar porções “aos que não têm nada preparado para si”. Na festa das cabanas que se segue, “nunca fizeram assim os filhos de Israel, desde os dias de Josué, filho de Num, até àquele dia; e houve mui grande alegria” (8:17).
Por que o povo confessa e promete de novo nos capítulos 9 e 10?
No dia vinte e quatro do mês, o povo se ajunta “com jejum e com sacos” (9:1). O texto registra a divisão do tempo: leram a lei “uma quarta parte do dia” e “na outra quarta parte fizeram confissão” (9:3). A oração dos levitas percorre a história de Abraão ao presente, e o ciclo de 9:26-28 resume os juízes: rebelião, angústia, libertadores, e “em tendo repouso, tornavam a fazer o mal diante de ti”. O centro da oração é 9:17: “Deus perdoador, clemente e misericordioso, tardio em irar-te, e grande em beneficência”. E termina em 9:36 com uma queixa honesta: “hoje somos servos; e até na terra que deste a nossos pais… somos servos nela”.
Em seguida “fizemos uma firme aliança, e o escrevemos” (9:38). Neemias assina primeiro (10:1), e o compromisso fixa promessas específicas: não dar nem tomar filhas dos povos da terra (10:30), não comprar mercadoria no sábado (10:31), sustentar o templo com dízimos e primícias (10:37-39). O capítulo 10 fecha com uma frase que volta no fim do livro: “assim não desampararíamos a casa do nosso Deus” (10:39).
O que quebrou no capítulo 13 dos compromissos do capítulo 10?
Neemias conta que, no ano trinta e dois de Artaxerxes, se ausentou de Jerusalém para ir ter com o rei (13:6). Ao voltar, encontra o que a tabela mostra. O texto liga a quebra à ausência dele, embora não diga que essa tenha sido a única causa.
| Compromisso do capítulo 10 | O que Neemias encontra no capítulo 13 | O que ele faz |
|---|---|---|
| Não dar filhas aos povos da terra nem tomar as filhas deles (10:30) | Judeus casados com mulheres asdoditas, amonitas e moabitas, e filhos que “não podiam falar judaico” (13:23-24) | Contende, amaldiçoa, espanca alguns, arranca-lhes os cabelos e os faz jurar (13:25) |
| Não comprar mercadoria dos povos no sábado (10:31) | Cargas entrando em Jerusalém no sábado e tírios vendendo peixe (13:15-16) | Fecha as portas antes do sábado, põe servos nelas e ameaça os negociantes (13:19-21) |
| Trazer dízimos e porções para os levitas (10:37-39) | Os levitas e cantores “tinham fugido cada um para a sua terra” (13:10) | Pergunta aos magistrados “Por que se desamparou a casa de Deus?” e os devolve ao posto (13:11) |
| “não desampararíamos a casa do nosso Deus” (10:39) | Uma grande câmara do templo cedida a Tobias (13:4-5, 13:7) | Lança os móveis de Tobias para fora e manda purificar as câmaras (13:8-9) |
O detalhe mais duro é a câmara. Eliasibe, o sacerdote que presidia sobre as câmaras do templo, “se tinha aparentado com Tobias” (13:4). Muitos comentaristas identificam esse Eliasibe com o sumo sacerdote que abriu o muro pela porta das Ovelhas em 3:1. Se for o mesmo, o primeiro construtor do capítulo 3 é também o que abriu espaço no templo para o inimigo do capítulo 4. O verbo de 13:11, “desamparou”, é o mesmo de 10:39 na ACF.
A reação de Neemias em 13:25 é violenta, e o texto a registra sem recomendá-la. Vale comparar com Esdras 9:3, onde Esdras, diante do mesmo problema, diz: “arranquei os cabelos da minha cabeça e da minha barba”, os próprios. Neemias cita Salomão para justificar a dureza: “Porventura não pecou nisto Salomão, rei de Israel?” (13:26, veja o perfil de Salomão). A questão dos casamentos tem mais de uma leitura, e o estudo de Rute mostra por quê: uma moabita diz “o teu Deus é o meu Deus” (Rute 1:16).
Como fazer um estudo de Neemias na prática
Leia o livro em duas etapas, a primeira até o capítulo 7 e a segunda a partir do 8. Depois volte ao capítulo 10 e sublinhe as promessas dos versículos 30, 31 e 37 a 39, e leia o capítulo 13 com o dedo nessas mesmas linhas. Um estudo de Neemias que faça essa comparação mostra que a reforma precisou ser refeita, e que o livro não esconde isso.
Para o capítulo da alegria, abra Neemias 8. Para o capítulo final, leia Neemias 13 de uma vez, porque as quatro reformas são narradas em sequência.
Perguntas frequentes sobre Neemias
Quem foi Neemias?
Num estudo de Neemias, ele aparece primeiro como o copeiro do rei persa Artaxerxes que pediu licença para reconstruir os muros de Jerusalém e foi governador de Judá por doze anos (5:14). Escreveu o livro em primeira pessoa.
Quanto tempo Neemias levou para reconstruir o muro?
Cinquenta e dois dias, segundo Neemias 6:15: o muro ficou pronto “aos vinte e cinco do mês de Elul”. A obra enfrentou zombaria, ameaças e uma crise de dívidas entre o próprio povo.
Qual é a diferença entre Esdras e Neemias?
Esdras era sacerdote e escriba, e seu foco é a lei e o povo. Neemias era governador e copeiro do rei, e seu foco é o muro e a organização da cidade. Os dois aparecem juntos em Neemias 8:9 e na dedicação do muro (12:36).
O que significa “a alegria do SENHOR é a vossa força”?
Num estudo de Neemias, o ponto é o contexto: foi dito em Neemias 8:10 a um povo que chorava ao ouvir a lei. A alegria vem de entender a palavra (8:12) e vem com uma ordem prática: enviar porções a quem não tem nada preparado.
Quem foram Sambalate e Tobias?
Os principais opositores da obra. Sambalate era horonita e Tobias era amonita (2:10), e os dois tinham aliados em Judá: em 6:18 muitos eram ajuramentados a Tobias, e em 13:28 um neto do sumo sacerdote era genro de Sambalate.
Como termina o livro de Neemias?
Com o pedido “lembra-te de mim, Deus meu, para bem” (13:31), depois de Neemias organizar as ofertas de lenha em tempos determinados e as primícias. É a quarta vez que a frase aparece no livro.
Quem faz os estudos bíblicos deste site?
Os textos são escritos por João Andrade, que estuda a Bíblia há mais de quinze anos. O método de trabalho e a trajetória dele estão na página do autor.
Um livro sobre um muro que termina na lenha
Neemias 13:31 é a última frase do livro, e ela não fala do muro nem da festa. Fala de “ofertas de lenha em tempos determinados” e de primícias, e termina com o pedido “lembra-te de mim, Deus meu, para bem”.
O último ato registrado do governador é pôr em dia a entrega de lenha para o altar. A frase “lembra-te de mim” tinha aparecido em 5:19, 13:14 e 13:22, sempre depois de um trabalho concreto que ele acabara de descrever.