Estudo de Rute: a estrangeira que entrou na árvore genealógica de Jesus

Um estudo de Rute começa com um problema legal. A lei de Israel dizia que nenhum moabita entraria na assembleia do Senhor até a décima geração. Rute era moabita. Quatro capítulos depois, ela é bisavó do rei Davi, e o Evangelho de Mateus a coloca na genealogia de Jesus. O livro inteiro existe para explicar como isso aconteceu.

Rute é um dos livros mais curtos da Bíblia, quatro capítulos, cerca de vinte minutos de leitura. A história é doméstica: duas viúvas sem dinheiro, uma colheita de cevada e um parente disposto a agir. Não há milagre nem profeta, e nenhuma batalha aparece. O nome de Deus aparece pouco, quase sempre na boca dos personagens, abençoando uns aos outros. Essa discrição é o que mais gera discussão em torno do livro.

Resumo

  • O livro se passa “nos dias em que os juízes julgavam”, o período mais caótico da história de Israel, mas não narra nenhum evento nacional.
  • Noemi perde marido e dois filhos em Moabe e volta para Belém vazia, acompanhada da nora moabita Rute, que se recusou a abandoná-la.
  • Rute recolhe espigas no campo de Boaz, parente de Noemi e um dos “remidores” da família.
  • Depois da cena na eira e de uma negociação na porta da cidade, Boaz redime a terra e se casa com Rute.
  • O filho deles, Obede, é avô de Davi. Uma estrangeira entra na linhagem real de Israel.

O que é o livro de Rute?

Rute é uma novela histórica curta, contada com cuidado de romancista. O autor é anônimo. A primeira frase situa a história no tempo dos juízes, o que nas Bíblias cristãs justifica a posição do livro logo depois de Juízes. Na Bíblia hebraica ele fica entre os Escritos e é lido na festa de Pentecostes, ligada à colheita.

A palavra que amarra o livro é difícil de traduzir. O hebraico “chessed” aparece três vezes (1:8, 2:20, 3:10) e significa algo como lealdade que vai além da obrigação, bondade que cumpre um vínculo mesmo quando ninguém está cobrando. Noemi deseja chessed às noras. Rute pratica chessed ao ficar. Boaz responde com chessed ao proteger e depois redimir. O livro é um estudo de caso sobre essa qualidade, encenada por pessoas comuns num vilarejo, enquanto o resto de Israel, segundo o livro de Juízes, se despedaça.

Por que a origem moabita de Rute é tão importante?

Moabe não era um estrangeiro qualquer. O povo descendia de Ló, nascido de uma relação incestuosa (Gênesis 19), e tinha contratado Balaão para amaldiçoar Israel. Deuteronômio 23 exclui os moabitas da assembleia do Senhor. Quando o narrador chama Rute de “a moabita” sete vezes ao longo de quatro capítulos, ele não está sendo descuidado. Está insistindo na etiqueta que deveria mantê-la de fora.

A entrada dela não é por cima do muro. É pela porta da frente, com testemunhas. No capítulo 4, os anciãos de Belém abençoam o casamento comparando Rute a Raquel, a Lia e a Tamar, três mulheres que “edificaram a casa de Israel”. A leitura comum trata isso como um final feliz. O texto original está fazendo algo mais ousado: colocando o nome de uma moabita ao lado das matriarcas, e três gerações depois, na certidão de nascimento do maior rei de Israel.

Por que Rute podia recolher espigas no campo de Boaz?

Não era caridade improvisada, era lei. Levítico 19 e Deuteronômio 24 proibiam o dono da lavoura de colher até o último canto do campo e de voltar para pegar o que caiu. O que sobrava ficava para “o pobre e o estrangeiro”. Rute era as duas coisas ao mesmo tempo: viúva sem terra e moabita.

Boaz não inventa um favor, ele vai além do mínimo que a lei exige. Manda os trabalhadores deixarem cair punhados de propósito e não repreenderem a moça se ela colher perto demais dos feixes. Aí está o chessed de novo: a lei garantia o suficiente para não passar fome; Boaz oferece o bastante para Rute voltar para casa com quase um efa de cevada, cerca de treze quilos, no primeiro dia. A generosidade dele opera dentro da estrutura legal de Israel, não à parte dela.

O que significa “remidor” no livro de Rute?

O termo hebraico é “goel”, e a Almeida traduz por “remidor” ou “resgatador”. Era o parente mais próximo, com três deveres possíveis: comprar de volta a terra que a família perdeu, resgatar um parente vendido como escravo, e vingar sangue derramado. No caso de uma viúva sem filhos, entrava também o casamento de levirato descrito em Deuteronômio 25: o parente casava com ela para dar um herdeiro ao nome do falecido.

Rute 2:20
Este homem é nosso parente chegado, e um dentre os nossos remidores.

Boaz é um goel, mas não o primeiro da fila. Há um parente mais próximo. Toda a tensão do capítulo 4 está aí: Boaz precisa que o outro homem abra mão publicamente antes de poder agir. O detalhe que Boaz acrescenta na porta da cidade, que quem redime a terra também assume Rute, a moabita, e o dever de gerar um herdeiro, é o que faz o primeiro remidor recuar. Ele teme “prejudicar a sua herança”. Boaz aceita exatamente o custo que o outro rejeita.

O que aconteceu na eira?

O capítulo 3 é o mais delicado do livro, e um estudo de Rute honesto não deve suavizá-lo nem exagerá-lo. Noemi instrui Rute a se lavar, se perfumar, descer à eira à noite, esperar Boaz dormir depois de comer e beber, descobrir os pés dele e deitar-se ali. O vocabulário é carregado de ambiguidade proposital. “Pés” às vezes é eufemismo no hebraico, e a cena acontece no escuro, com um homem cujo “coração estava alegre”.

O que o texto afirma é o que importa. Boaz acorda assustado à meia-noite, pergunta quem está ali, e Rute se identifica e propõe casamento em linguagem legal:

Rute 3:9
Sou Rute, tua serva; estende pois tua capa sobre a tua serva, porque tu és o remidor.

“Estender a capa” era um gesto de aliança matrimonial. Boaz responde chamando-a de “mulher virtuosa”, a mesma expressão de Provérbios 31, e trata a proposta como uma questão a ser resolvida pela lei, não pela paixão. Ele a manda embora antes do amanhecer para proteger a reputação dela. A cena é arriscada, e o livro sabe disso. O foco do capítulo está em dois personagens que escolhem o caminho da lealdade dentro de uma situação que poderia facilmente ter dado errado.

Como o livro de Rute termina em Davi

Os últimos cinco versículos mudam de gênero. A novela vira genealogia. Obede, filho de Boaz e Rute, gera Jessé, que gera Davi. O livro que começou com três mortes e uma mulher se chamando “Mara”, que quer dizer amarga, termina com as vizinhas colocando um bebê no colo de Noemi e dizendo que a nora moabita “te é melhor do que sete filhos”.

Rute 4:15
Ele te será por restaurador da alma, e nutrirá a tua velhice, pois tua nora, que te ama, o deu à luz, e ela te é melhor do que sete filhos.

A palavra “vazia”, que Noemi usou para descrever sua volta a Belém no capítulo 1, é respondida aqui sem alarde. Ninguém anuncia um milagre. A restauração vem por meio de uma colheita, um parente que fez a coisa certa e um casamento. Para acompanhar como essa linhagem chega ao trono, vale ler depois o estudo sobre Davi.

Rute é um “tipo” de Cristo?

A leitura devocional tradicional vê Boaz como figura de Cristo: o remidor que paga o preço que ninguém mais quis pagar, que cobre a serva com a sua capa, que traz uma estrangeira para dentro do povo. Há base para isso, e Rute 4 realmente prepara o terreno para a genealogia de Mateus 1, onde Rute aparece ao lado de Tamar e Raabe.

Vale notar o limite. O livro não se apresenta como alegoria. Ele é, antes de tudo, uma história sobre chessed entre gente comum, e forçar cada detalhe a apontar para Cristo enfraquece o que o texto de fato faz: mostrar que a providência de Deus costuma trabalhar sem ser vista, em decisões pequenas e fiéis. A ligação com Jesus é real, mas está na linhagem, não em cada frase.

Como fazer um estudo de Rute na prática

Leia os quatro capítulos de uma sentada, como se fosse um conto. Depois releia procurando a palavra “remidor” e todas as vezes em que alguém abençoa outra pessoa em nome do Senhor. São dois fios que sustentam o livro.

Um plano de quatro dias, um capítulo por dia: capítulo 1 (a perda, o voto de Rute, a volta amarga), capítulo 2 (a colheita e o primeiro encontro com Boaz), capítulo 3 (a eira e a proposta), capítulo 4 (a porta da cidade, o casamento, a genealogia). Leia cada um na Bíblia online e compare o começo com o fim: as mesmas mulheres, o mesmo lugar, o oposto da situação. Quem quiser acompanhar a trajetória da personagem em vez da estrutura do livro pode ler o perfil de Rute na Bíblia. E o estudo de Gênesis ajuda a entender a referência a Tamar e Perez no capítulo 4.

Perguntas frequentes sobre o livro de Rute

Quem escreveu o livro de Rute?

O livro é anônimo. A genealogia final, que termina em Davi, indica que foi concluído pelo menos no tempo da monarquia. A tradição judaica atribui a autoria a Samuel, sem confirmação no texto.

Quando se passa a história de Rute?

No período dos juízes, entre a conquista de Canaã e o início da monarquia, provavelmente por volta dos séculos 12 a 11 antes de Cristo. A menção a Davi no fim serve de âncora cronológica.

Rute era israelita?

Não. Ela era de Moabe, um povo com quem Israel tinha histórico de conflito. Casou-se com um israelita que vivia refugiado em Moabe durante uma fome, ficou viúva e escolheu seguir a sogra e o Deus de Israel.

O que Rute fez na eira foi imoral?

O texto não descreve relação sexual e faz questão de registrar que Boaz mandou Rute embora antes do amanhecer para proteger sua reputação. A cena é arriscada e ambígua de propósito, mas o desfecho é uma proposta de casamento tratada pelos meios legais da época.

Por que Rute está na genealogia de Jesus?

Porque ela é bisavó de Davi, e a linhagem messiânica passa por Davi. Mateus 1 a inclui, ao lado de outras mulheres de origem incomum, mostrando que estrangeiros sempre estiveram na história da salvação.

Qual é a mensagem central do livro de Rute?

Que a fidelidade leal, o chessed, praticada em decisões comuns, é o meio pelo qual Deus conduz a história. Uma família em ruínas é restaurada por gente que simplesmente fez a coisa certa.

Quem faz os estudos bíblicos deste site?

Os textos são escritos por João Andrade, que estuda a Bíblia há mais de quinze anos. O método e a trajetória estão na página do autor.

O colo que estava vazio

Volte à última cena. Noemi, que pediu para ser chamada de amarga, está sentada com um bebê no colo, e as vizinhas dizem que o menino nasceu “a Noemi”. Não é o filho dela. É filho de Rute, a estrangeira que ela tentou mandar de volta para casa no primeiro capítulo. Um estudo de Rute que termine aqui já entendeu o livro: a restauração não veio como Noemi esperava, veio pela pessoa que ela quase recusou.

João Andrade

João Andrade

João Andrade estuda a Bíblia há mais de 15 anos. Não é teólogo de formação: o que tem é anos de estudo pessoal, centenas de livros de exegese lidos e o hábito de conferir cada versículo no contexto e no idioma original antes de escrever. Criou o Bíblia Online Fiel para o cristão que quer profundidade sem linguagem acadêmica.