Numa estrada entre Moabe e Belém, três viúvas param para decidir o resto de suas vidas, e a decisão de uma delas mudou a genealogia do Messias. A história de Rute na Bíblia começa nesse cruzamento: uma sogra amargurada mandando as noras voltarem, uma que volta, e outra que se agarra. Rute na Bíblia é a única mulher estrangeira com um livro inteiro em seu nome nas Escrituras, e a história dela prova que nenhuma origem, nenhum luto e nenhuma escassez colocam alguém fora do alcance da aliança de Deus.
Resumo
- Rute era moabita, viúva de um judeu que migrara para Moabe durante a fome em Belém.
- Recusou-se a abandonar a sogra Noemi e fez o voto de lealdade mais citado da Bíblia: o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus.
- Em Belém, sustentou as duas respigando cevada nos campos, onde encontrou Boaz, parente do falecido sogro.
- Boaz exerceu o papel de resgatador (goel), casou-se com ela e redimiu a herança da família.
- Rute tornou-se bisavó do rei Davi e entrou na genealogia de Jesus, uma das quatro mulheres citadas por Mateus.
Quem foi Rute na Bíblia?
Rute era de Moabe, nação vizinha e rival de Israel, nascida do episódio vergonhoso entre Ló e suas filhas e proibida por lei de entrar na congregação do SENHOR até a décima geração. É importante começar por aí: para o leitor israelita original, “moabita” não era um detalhe geográfico, era um desqualificador. O livro repete a palavra de propósito, “Rute, a moabita”, como quem sublinha o escândalo da graça que vem a seguir.
Ela entrou na história de Israel pela porta da tragédia: casou-se com um dos filhos de Elimeleque e Noemi, judeus de Belém refugiados da fome em Moabe. Em dez anos, morreram o sogro e os dois filhos, sem deixar herdeiros. Sobraram três viúvas, que no mundo antigo significava três pessoas sem renda, sem proteção e sem futuro.
O que Rute prometeu a Noemi?
Noemi decidiu voltar a Belém e liberou as noras com uma bênção e um empurrão realista: voltem para a casa de suas mães, refaçam a vida. Orfa voltou chorando. Rute respondeu com as palavras que atravessaram três mil anos, registradas em Rute 1:
Não me instes para que te abandone, e deixe de seguir-te; porque aonde quer que tu fores irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus; Onde quer que morreres morrerei eu, e ali serei sepultada. Faça-me assim o SENHOR, e outro tanto, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti.
Rute 1:16-17
Vale medir o tamanho do que ela estava assinando. Rute não estava seguindo uma sogra próspera para uma vida melhor: estava trocando a terra natal, a religião dos pais e qualquer chance realista de novo casamento por uma velha amargurada e um Deus que, até ali, só lhe havia tirado coisas. Noemi chegou a Belém dizendo “chamai-me Mara”, amargura, “porque o Todo-Poderoso me encheu de amargura”. Rute jurou lealdade não no dia claro da fé de Noemi, mas na noite escura dela. Existe um nome bíblico para esse tipo de amor que se vincula sem garantias: chesed, a lealdade da aliança, e o livro inteiro é um estudo dessa palavra.
Quem foi Boaz e o que é um resgatador?
Em Belém, na colheita da cevada, Rute saiu para respigar, o direito que a lei de Israel garantia aos pobres de recolher as sobras dos ceifeiros. “Por acaso”, diz o texto com ironia santa, ela caiu no campo de Boaz, homem poderoso e parente de Elimeleque. Boaz notou a estrangeira, perguntou por ela, e a recepcionou com uma bênção que resume a teologia do livro:
O SENHOR retribua o teu feito; e te seja concedido pleno galardão da parte do SENHOR Deus de Israel, sob cujas asas te vieste abrigar.
Rute 2:12
Boaz era um goel em potencial, o resgatador: na lei de Israel, o parente mais próximo tinha o dever de redimir a terra vendida por um familiar empobrecido e de levantar descendência ao parente morto. Instruída por Noemi, Rute foi de noite à eira e se deitou aos pés de Boaz, um gesto de proposta dentro dos códigos da época: estende a tua capa sobre mim, porque tu és o resgatador. A resposta dele revela o caráter dos dois:
Agora, pois, minha filha, não temas; tudo quanto disseste te farei, pois toda a cidade do meu povo sabe que és mulher virtuosa.
Rute 3:11
A expressão “mulher virtuosa” é exatamente a mesma de Provérbios 31, e na ordem do cânon hebraico o livro de Rute vem logo depois de Provérbios: a pergunta “mulher virtuosa, quem a achará?” recebe uma resposta com nome, e o nome é de uma moabita pobre. Havia um parente mais próximo com direito de preferência, e Boaz resolveu a questão à porta da cidade, diante de dez anciãos, com a lisura de quem não corta caminho nem no amor.
Como a história de Rute termina?
Com uma genealogia, e é o final mais importante do livro. Boaz casou com Rute, e o filho deles foi colocado no colo de Noemi, a mulher que pedira para ser chamada de amargura:
E as vizinhas lhe deram um nome, dizendo: A Noemi nasceu um filho. E deram-lhe o nome de Obede. Este é o pai de Jessé, pai de Davi.
Rute 4:17
A moabita virou bisavó do maior rei de Israel, cuja história completa está em Davi na Bíblia. E Mateus abre o Novo Testamento fazendo questão de registrar o nome dela na genealogia de Jesus, uma das quatro mulheres citadas, todas com histórias que a religiosidade preferiria esconder. O Messias tem sangue moabita, e a Bíblia considera isso boa notícia, não constrangimento. Outros ângulos dessa história estão em por que uma moabita está na linhagem de Jesus.
Perguntas frequentes sobre Rute
O que significa o nome Rute?
Provavelmente “amiga” ou “companheira”, do hebraico reut. Poucas vezes um nome coincidiu tanto com uma biografia: a amizade leal dela com Noemi é o motor do livro inteiro.
Em que época Rute viveu?
No período dos juízes, era de anarquia espiritual em que “cada um fazia o que parecia reto aos seus olhos”. O livro é o contraponto silencioso daquele tempo: enquanto a nação afundava, uma família estrangeira praticava lealdade e bondade no interior.
Por que Rute podia entrar em Israel se a lei proibia moabitas?
A proibição visava a religião e a hostilidade de Moabe, não o sangue em si. Rute abandonou os deuses moabitas e se abrigou “debaixo das asas” do SENHOR, e a fé dela a enxertou no povo da aliança, um prenúncio do evangelho que abriria a porta a todas as nações.
O que significa o gesto de Rute na eira?
Deitar-se aos pés de Boaz e pedir a capa sobre si era um pedido formal de casamento e resgate, dentro dos costumes da época. O texto enfatiza a pureza da cena: Boaz a louva, a protege e encaminha tudo publicamente na manhã seguinte.
Quem era o parente mais próximo que recusou Rute?
O livro não diz o nome dele, de propósito: o homem que não quis arriscar sua herança para dar nome a outro ficou sem nome na história. Boaz, que arriscou, é lembrado até hoje na genealogia do Messias.
O que Boaz tem a ver com Jesus?
Boaz é a figura mais clara do resgatador na Bíblia: o parente que paga o preço para redimir quem não podia se redimir. O Novo Testamento apresenta Cristo exatamente assim, o goel que se fez parente para poder resgatar.
A aritmética da lealdade
O livro de Rute não tem milagres, vozes do céu nem profetas. Tem uma estrangeira que ficou quando podia partir, um homem que pagou quando podia se esquivar, e uma sogra que reaprendeu a esperança com um neto no colo. Com esse material aparentemente comum, Deus escreveu um capítulo da genealogia do seu Filho.
Essa é a mensagem que a moabita entrega a cada leitor: as decisões de lealdade tomadas nos dias escuros, sem promessa visível de retorno, são as que Deus mais usa. Ninguém na estrada de Moabe imaginava Davi, muito menos Belém e seu presépio. A pergunta de Rute para hoje é concreta: a quem você está deixando de ser leal porque a fidelidade, agora, só tem custo?