João apóstolo: do filho do trovão ao apóstolo do amor

O apelido que Jesus deu a ele não foi “apóstolo do amor”: foi “filho do trovão”. A história de João apóstolo é a prova mais longa e mais documentada de transformação de caráter no Novo Testamento: o pescador explosivo que quis mandar fogo do céu sobre uma aldeia terminou a vida como o ancião que resumia tudo em “amai-vos uns aos outros”. Entender João apóstolo é acompanhar meio século de convivência com Cristo fazendo efeito numa personalidade difícil, e essa é uma esperança concreta para qualquer temperamento.

E a Tiago, filho de Zebedeu, e a João, irmão de Tiago, aos quais pôs o nome de Boanerges, que significa: Filhos do trovão.
Marcos 3:17

Resumo

  • João era pescador da Galileia, filho de Zebedeu e irmão de Tiago, sócio de Pedro antes do chamado.
  • Fez parte do círculo íntimo de Jesus, com Pedro e Tiago, presente na transfiguração e no Getsêmani.
  • Era impulsivo e ambicioso: quis fogo sobre samaritanos e pediu assento à direita no reino.
  • Identifica-se como “o discípulo a quem Jesus amava” e recebeu Maria aos cuidados na cruz.
  • Escreveu o quarto evangelho, três cartas e o Apocalipse, e foi o último apóstolo a morrer.
  • Exilado em Patmos, recebeu a revelação que encerra a Bíblia.

Quem foi João apóstolo antes de Cristo?

João trabalhava na pesca no mar da Galileia, num negócio de família com barcos e empregados, o que indica condição razoável. O pai era Zebedeu; a mãe, tudo indica, era Salomé, uma das mulheres que acompanhavam e serviam a Jesus. João era provavelmente o mais jovem dos doze, e começou como discípulo de João Batista, que um dia apontou para Jesus e disse “eis o Cordeiro de Deus”. João seguiu, e nunca esqueceu a hora do encontro: o evangelho dele registra que “era quase a hora décima”.

O temperamento aparece cedo nos relatos. Foi João quem proibiu um homem de expulsar demônios “porque não seguia conosco”, ganhando correção de Jesus. Foi ele quem, com o irmão, propôs a solução mais drástica da história para uma recusa de hospedagem:

E os seus discípulos, Tiago e João, vendo isto, disseram: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez?
Lucas 9:54

E foram os dois, com a ajuda da mãe, que pediram os tronos à direita e à esquerda no reino. Sectário, violento no impulso, ambicioso: esse era o material bruto. Jesus repreendeu as três atitudes e não descartou o homem nenhuma das três vezes. O apelido Boanerges, aliás, não foi dado como elogio nem como condenação, mas como diagnóstico de quem sabia o que tinha nas mãos e o que faria com aquilo.

Por que João é chamado de discípulo amado?

No evangelho que escreveu, João nunca usa o próprio nome: chama a si mesmo de “o discípulo a quem Jesus amava”. A primeira aparição do título é na última ceia:

Ora, um de seus discípulos, aquele a quem Jesus amava, estava reclinado no seio de Jesus.
João 13:23

A leitura apressada acha arrogância; a leitura atenta encontra o oposto. João não se define pelo que fez por Jesus, e sim pelo que Jesus sentia por ele. É a identidade cristã inteira numa assinatura: ser alguém amado. E o título foi testado no pior dia: dos doze, João foi o único que as Escrituras colocam ao pé da cruz, onde recebeu de Jesus o encargo de cuidar de Maria, mãe de Jesus, “e desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa”. Na manhã da ressurreição, correu ao túmulo com Pedro, chegou primeiro, viu os lençóis e creu, o primeiro a crer sem ver o Ressurreto.

O que Jesus respondeu sobre o futuro de João?

Na praia, depois da restauração de Pedro, aconteceu um diálogo que virou lenda na igreja primitiva:

Vendo Pedro a este, disse a Jesus: Senhor, e deste que será? Disse-lhe Jesus: Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti? Segue-me tu.
João 21:21-22

Espalhou-se o boato de que João não morreria, e o próprio João, escrevendo décadas depois, faz questão de corrigir: Jesus não disse que ele não morreria. O registro é precioso por dois motivos: mostra o último sobrevivente dos doze desmontando um mito sobre si mesmo, e preserva a lição do “que te importa a ti?”: cada discípulo tem uma rota, e comparar chamados é doença antiga.

O que João apóstolo escreveu?

Cinco livros do Novo Testamento vêm da pena dele, escritos na velhice, provavelmente em Éfeso: o quarto evangelho, as três cartas e o Apocalipse. O evangelho é o mais teológico dos quatro, escrito “para que creiais”, analisado no estudo de João. As cartas são o destilado do velho pastor combatendo heresias e repetindo o essencial:

Amados, amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor.
1 João 4:7-8

“Deus é amor” é a frase mais citada de João, e vale lembrar quem a escreveu: o ex-candidato a incendiar samaritanos. Ninguém nasce apóstolo do amor; João foi lapidado até virar um. A tradição conta que, muito idoso, carregado à igreja, ele repetia apenas “filhinhos, amai-vos uns aos outros”, e explicava: porque é o mandamento do Senhor, e basta que ele se cumpra.

O que aconteceu com João em Patmos?

Na perseguição do imperador Domiciano, João foi exilado na ilha de Patmos, uma rocha no mar Egeu. A apresentação que ele faz de si mesmo em Apocalipse 1 resume seu caminho:

Eu, João, que também sou vosso irmão, e companheiro na aflição, e no reino, e paciência de Jesus Cristo, estava na ilha chamada Patmos, por causa da palavra de Deus, e pelo testemunho de Jesus Cristo.
Apocalipse 1:9

Não “eu, o apóstolo que sobrou”, mas “vosso irmão e companheiro na aflição”. Foi nesse exílio que ele recebeu a revelação de Cristo glorificado e do desfecho da história, o livro percorrido no estudo de Apocalipse. O filho do trovão, que um dia quis fogo do céu sobre uma aldeia, foi escolhido para registrar o dia em que o fogo virá de fato, e escreveu tremendo, sustentado pela mão do Senhor que lhe disse “não temas”. Segundo a tradição, voltou a Éfeso após a morte de Domiciano e morreu de velhice por volta do ano 100, o único dos doze que não foi martirizado.

Perguntas frequentes sobre João

Qual a diferença entre João apóstolo e João Batista?

São homens diferentes: João Batista foi o precursor que batizou Jesus e morreu decapitado por Herodes no início do ministério; João apóstolo foi um dos doze, autor do evangelho e do Apocalipse.

João escreveu mesmo os cinco livros?

A tradição da igreja antiga, incluindo discípulos diretos dele como Policarpo, atribui a João o evangelho, as três cartas e o Apocalipse. O estilo do Apocalipse difere pelo gênero profético, mas o vocabulário essencial, o Verbo, o Cordeiro, a luz, é a assinatura dele.

Quantos anos João viveu?

A tradição indica que morreu por volta do ano 100, com cerca de 90 anos ou mais, em Éfeso, sendo o último elo vivo com o ministério terreno de Jesus.

Por que João não cita o próprio nome no evangelho?

Pela mesma razão do título “discípulo amado”: o evangelho aponta para Jesus, não para a testemunha. O anonimato é humildade literária e teologia ao mesmo tempo.

João era primo de Jesus?

Comparando os relatos da crucificação, muitos identificam Salomé, mãe de João, como irmã de Maria, o que faria de João primo de Jesus. Explicaria também a naturalidade do encargo da cruz: cuidar de Maria ficaria em família.

O que aconteceu com Tiago, o irmão de João?

Tiago foi o primeiro apóstolo martirizado, morto à espada por Herodes Agripa. Os dois irmãos beberam o cálice que disseram a Jesus poder beber: um pela morte precoce, o outro pela longa fidelidade.

O trovão que virou amor

João é o argumento vivo de que temperamento não é destino. Jesus não apagou a intensidade dele: redirecionou. O mesmo homem de tudo ou nada que queria fogo sobre inimigos passou a escrever que quem não ama não conhece a Deus, com a mesma radicalidade de sempre, agora apontada para o alvo certo.

Meio século andando com Cristo faz isso com uma pessoa. Não em três anos: os evangelhos mostram João ainda cru no fim do ministério de Jesus. A transformação levou décadas de permanência, e talvez essa seja a palavra final da vida dele, a mesma que ele mais usou no evangelho: permanecer. O seu temperamento, seja trovão ou silêncio, não é obstáculo para Deus; é matéria-prima. A única pergunta é se vai permanecer tempo suficiente na videira para a lapidação acontecer.

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