O homem que escreveu quase metade dos livros do Novo Testamento entrou na história segurando as capas dos que apedrejavam o primeiro mártir cristão. A trajetória de Paulo na Bíblia é a maior reviravolta das Escrituras: o perseguidor oficial da igreja transformado no seu maior missionário, o fariseu irrepreensível que passou a considerar seu currículo escória, o prisioneiro que evangelizou os próprios carcereiros. Contar a história de Paulo na Bíblia é contar como o evangelho saiu de Jerusalém e chegou ao coração do império, carregado por um homem que nunca se perdoou sozinho, mas foi perdoado.
Resumo
- Saulo de Tarso era fariseu, discípulo de Gamaliel, cidadão romano e perseguidor da igreja, presente na morte de Estêvão.
- No caminho de Damasco, o Cristo ressurreto o confrontou, e o perseguidor se converteu ao Senhor que perseguia.
- Realizou três grandes viagens missionárias, plantando igrejas na Ásia Menor e na Europa.
- Escreveu 13 cartas do Novo Testamento, de Romanos a Filemom, boa parte delas da prisão.
- Sofreu açoites, naufrágios, apedrejamento e prisões, sustentado pela graça que “basta”.
- Segundo a tradição, foi decapitado em Roma sob Nero, depois de declarar: combati o bom combate.
Quem foi Paulo na Bíblia antes da conversão?
Saulo nasceu em Tarso, cidade universitária da Cilícia, herdeiro de uma combinação rara: judeu da tribo de Benjamim, fariseu educado em Jerusalém aos pés de Gamaliel, o mestre mais respeitado da época, e cidadão romano de nascimento. Falava grego, pensava em hebraico e circulava no império com passaporte de elite. Pelos próprios critérios, era “irrepreensível na justiça que há na lei”.
Esse zelo tinha dentes. Saulo aprovou a morte de Estêvão, assolava a igreja entrando pelas casas, arrastando homens e mulheres para a prisão, e partiu para Damasco com cartas do sumo sacerdote para caçar cristãos fora do país. A Bíblia não suaviza o passado dele, e o próprio Paulo nunca deixou que suavizassem: chamava a si mesmo de o principal dos pecadores, e dizia que perseguira a igreja de Deus. A honestidade sobre o antes é o que dá peso ao depois.
O que aconteceu no caminho de Damasco?
A cena de Atos 9 é o eixo da história do cristianismo fora de Israel:
E, indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu. E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? E ele disse: Quem és, Senhor? E disse o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues.
Atos 9:3-5
Repare na pergunta de Jesus: “por que ME persegues?”. Saulo perseguia cristãos; Jesus se identifica com eles a ponto de tomar a perseguição como pessoal. Nessa frase está a teologia que Paulo passaria a vida desenvolvendo: a igreja é o corpo de Cristo, e tocar nela é tocar nele. Cego, o caçador entrou em Damasco guiado pela mão, e ali Deus enviou um discípulo assustado, Ananias, com a definição da nova vida:
Vai, porque este é para mim um vaso escolhido, para levar o meu nome diante dos gentios, e dos reis e dos filhos de Israel. E eu lhe mostrarei quanto deve padecer pelo meu nome.
Atos 9:15-16
Vale sublinhar o pacote completo do chamado: vaso escolhido e sofrimento anunciado, na mesma frase. Paulo nunca foi enganado sobre o custo. A vocação dele já veio com a fatura, e ele a pagou parcelada em açoites, prisões e naufrágios pelos trinta anos seguintes.
Como foram as viagens missionárias de Paulo?
Depois de anos de preparo na Arábia e em Tarso, e de ser buscado por Barnabé para ensinar em Antioquia, Paulo partiu para três grandes viagens registradas em Atos. Na primeira, evangelizou Chipre e o sul da Ásia Menor, sendo apedrejado e deixado como morto em Listra, e voltando à mesma cidade dias depois. Na segunda, uma visão o chamou à Macedônia, e o evangelho entrou na Europa: Filipos, Tessalônica, Bereia, Atenas, Corinto. Na terceira, fixou-se três anos em Éfeso, de onde a palavra se espalhou por toda a Ásia. Muitas dessas igrejas receberam depois cartas que ele escreveu preso: o estudo de Efésios, o estudo de Filipenses e o estudo de Colossenses percorrem três delas.
O método era consistente: sinagoga primeiro, depois os gentios, plantar a igreja, formar presbíteros, seguir adiante e pastorear de longe por cartas. Dessas cartas, treze entraram no Novo Testamento, incluindo a exposição doutrinária do estudo de Romanos e o grito de liberdade do estudo de Gálatas. Paulo sustentava a si mesmo fazendo tendas, para que ninguém dissesse que o evangelho tinha preço.
Como Paulo lidou com o sofrimento?
A lista que ele mesmo faz aos coríntios envergonha qualquer noção de ministério confortável: cinco vezes as trinta e nove chibatadas, três varadas, um apedrejamento, três naufrágios, perigos de rios, de salteadores, de falsos irmãos, fome, frio e o cuidado diário de todas as igrejas. Somado a tudo, um “espinho na carne” que ele pediu três vezes para Deus tirar. A resposta que recebeu virou o centro da sua teologia da fraqueza:
E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo.
2 Coríntios 12:9
O resumo contábil da vida dele, escrito da prisão, dispensa comentário:
Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor.
Filipenses 3:7-8
Como Paulo morreu?
O livro de Atos termina com Paulo preso em Roma, pregando “com toda a liberdade” em prisão domiciliar. As cartas pastorais indicam uma libertação e nova prisão, esta em condições duras, num cárcere de onde ele escreveu a Timóteo as últimas palavras registradas:
Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda.
2 Timóteo 4:7-8
A tradição unânime da igreja antiga registra que Paulo foi decapitado em Roma, na perseguição de Nero, por volta do ano 67. Como cidadão romano, foi poupado da cruz. O homem que segurou capas no apedrejamento de Estêvão morreu como Estêvão morreu: fiel, entregando o espírito ao Senhor que um dia o derrubou numa estrada.
Perguntas frequentes sobre Paulo
Por que Saulo virou Paulo?
Ele sempre teve os dois nomes: Saulo, hebraico, e Paulo, romano. Atos passa a usar o nome romano quando o ministério dele se volta aos gentios. Não foi Deus quem trocou o nome; foi a missão que escolheu qual usar.
Paulo conheceu Jesus pessoalmente antes da cruz?
Não há registro de encontro antes de Damasco. Paulo baseava seu apostolado em ter visto o Cristo ressurreto, “como a um nascido fora de tempo”, e no evangelho que recebeu por revelação.
Quantas cartas Paulo escreveu?
Treze levam seu nome no Novo Testamento, de Romanos a Filemom. Somadas, formam o maior corpo doutrinário da fé cristã depois dos evangelhos.
O que era o espinho na carne de Paulo?
O texto não revela. As hipóteses vão de doença ocular a perseguição constante. O anonimato do espinho é providencial: cada cristão pode aplicar a promessa da graça suficiente ao seu.
Paulo era casado?
Ele se declara solteiro ou viúvo em 1 Coríntios 7, recomendando o celibato a quem o tivesse como dom, pela liberdade que dava à missão.
Qual é o versículo que resume a vida de Paulo?
Gálatas 2:20: “já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim”. A biografia inteira dele é o desdobramento dessa troca de vidas.
O troféu da graça
Paulo chamou a si mesmo de exemplo: se Deus salvou o principal dos pecadores, ninguém está longe demais. A vida dele é o argumento ambulante contra duas mentiras opostas: a de quem se acha bom demais para precisar de graça, que era o fariseu irrepreensível, e a de quem se acha mau demais para recebê-la, que era o perseguidor com sangue nas mãos. As duas versões de Saulo morreram na mesma estrada.
No fim, a pergunta de Damasco continua sendo feita a cada leitor, apenas com outro verbo: não “por que me persegues?”, mas “por que me adias?”. Paulo respondeu no chão, cego e vencido: que queres que eu faça? Foi a pergunta mais fecunda da história da igreja. Ela ainda funciona.