Um estudo de Jonas desmonta rápido a ideia de que o profeta fugiu por covardia. Jonas explica o próprio motivo no capítulo 4: ele sabia que Deus perdoaria Nínive se ela se arrependesse, e não queria ver a capital do império que ameaçava destruir Israel receber misericórdia. Ele fugiu porque conhecia bem demais o Deus que o enviava.
Jonas tem quatro capítulos e menos de 1.300 palavras no hebraico. É o livro mais curto entre os profetas e o menos parecido com os outros. Não traz oráculos longos nem visões. Traz uma história, contada com humor amargo, sobre um pregador que faz tudo errado e mesmo assim vê acontecer o maior avivamento registrado no Antigo Testamento. O alvo do livro não é Nínive, é quem está lendo.
Resumo
- Deus manda Jonas pregar contra Nínive, capital da Assíria e inimiga mortal de Israel. Jonas embarca no rumo oposto.
- Uma tempestade, marinheiros pagãos que oram e se convertem, e um grande peixe que engole Jonas por três dias.
- Na segunda vez, Jonas obedece e prega uma frase. A cidade inteira, do rei aos animais, se arrepende, e Deus não a destrói.
- Jonas fica furioso com o perdão, e admite que fugiu justamente porque sabia que Deus é misericordioso.
- O livro termina com uma pergunta de Deus sobre ter compaixão de 120 mil pessoas. Jonas não responde.
O que é o livro de Jonas?
Jonas, filho de Amitai, foi um profeta real. O segundo livro de Reis, no capítulo 14, versículo 25, o cita profetizando durante o reinado de Jeroboão II, por volta do século 8 antes de Cristo, quando anunciou que Israel recuperaria fronteiras. Era um profeta ligado ao sucesso nacional, do tipo que o povo gostava de ouvir. O livro que leva o nome dele conta um episódio bem diferente.
A estrutura é simétrica. Dois capítulos de fuga e dois de missão. Em cada metade, Jonas recebe a mesma ordem, “levanta-te, vai à grande cidade de Nínive”, e reage de um jeito. Na primeira, corre. Na segunda, obedece de má vontade. O nome de Deus como criador aparece na boca de Jonas logo no começo, com ironia pesada:
Jonas 1:9
Eu sou hebreu, e temo ao SENHOR, o Deus do céu, que fez o mar e a terra seca.
Ele diz isso enquanto está num navio, fugindo pelo mar, do Deus que fez o mar. O livro inteiro funciona assim: mostra a distância entre o que Jonas sabe sobre Deus e o que ele está disposto a aceitar.
Por que Jonas não queria pregar em Nínive?
Nínive era a capital da Assíria, o império mais brutal da época e o que viria a destruir o reino do norte de Israel em 722 antes de Cristo. Pedir a um profeta israelita que fosse avisar Nínive era como pedir que ele desse ao inimigo uma chance de escapar do juízo.
Jonas guarda a explicação para o fim, e é a chave do livro:
Jonas 4:2
Não foi esta minha palavra, estando ainda na minha terra? Por isso é que me preveni, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus compassivo e misericordioso, longânimo e grande em benignidade, e que te arrependes do mal.
Vale notar que essa frase é uma citação. Jonas está repetindo, quase palavra por palavra, a descrição que Deus faz de si mesmo em Êxodo 34, quando se revela a Moisés. Jonas não tem um problema teológico. Ele acredita nessa descrição por inteiro. O problema dele é que essa misericórdia se aplica a gente que ele preferia ver destruída. A leitura pastoral costuma tratar Jonas como um caso de desobediência. É mais do que isso. É um crente ortodoxo que não suporta as implicações do que crê.
Jonas realmente foi engolido por um peixe?
Este é o ponto em que os estudos costumam se dividir, e um estudo de Jonas honesto apresenta as posições em vez de fingir que só existe uma.
A leitura histórica entende o livro como relato de um acontecimento real. Jesus se refere a Jonas e ao peixe como fato (Mateus 12), e cita os homens de Nínive como pessoas que de fato se arrependeram. Para quem sustenta essa posição, o “grande peixe” foi um meio sobrenatural preparado por Deus, e o texto deve ser lido como os demais relatos históricos do Antigo Testamento.
A leitura como parábola profética observa outros sinais no próprio texto: a ironia constante, o exagero deliberado (animais vestidos de saco e jejuando), a conversão instantânea e total de uma metrópole pagã, e o fato de o livro ensinar uma lição em vez de registrar cronologia. Nessa leitura, Jonas é uma história didática, no mesmo espírito das parábolas, escrita para confrontar o exclusivismo de Israel.
| Leitura histórica | Leitura como parábola profética | |
|---|---|---|
| Gênero | Relato de evento real, como os demais livros históricos | História didática, no espírito das parábolas |
| O grande peixe | Meio sobrenatural preparado por Deus | Elemento simbólico dentro da narrativa |
| Uso por Jesus (Mateus 12) | Confirma o evento como fato | Cita a história como referência conhecida, sem definir o gênero |
| Lição central | A mesma: Deus perdoa quem se arrepende, inclusive o inimigo | A mesma |
O que as duas leituras têm em comum é mais importante do que o que as separa. A mensagem do livro não muda: Deus tem misericórdia de quem se arrepende, inclusive do inimigo, e isso incomoda o povo de Deus.
Por que Nínive se arrependeu com um sermão de cinco palavras?
A mensagem de Jonas é o sermão mais curto da Bíblia:
Jonas 3:4
Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida.
Não há menção do nome de Deus, nenhum chamado ao arrependimento, nenhuma oferta de perdão. É só o anúncio da destruição. E ainda assim a cidade inteira crê, decreta jejum e se cobre de saco, do rei ao gado. O contraste é o ponto. Um profeta relutante, com a pior pregação possível, produz o arrependimento que profetas dedicados como Jeremias e Isaías raramente viram em Israel.
Jonas 3:10
E Deus viu as obras deles, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha anunciado lhes faria, e não o fez.
O livro está dizendo algo desconfortável para o leitor original: os de fora responderam melhor do que os de dentro. Os marinheiros do capítulo 1 acabam oferecendo sacrifício ao SENHOR. Nínive se converte no capítulo 3. O único que resiste do começo ao fim é o profeta.
O que a aboboreira ensina no capítulo 4?
Depois do avivamento, Jonas se senta fora da cidade para ver se Deus destrói mesmo. Deus então faz crescer uma planta que dá sombra, e Jonas fica feliz. No dia seguinte, um verme mata a planta, o sol bate na cabeça de Jonas, e ele pede para morrer de novo.
Quatro vezes no livro Deus “prepara” ou “manda” alguma coisa: o peixe, a planta, o verme, o vento. Ele governa cada elemento, grande ou minúsculo, para ensinar um homem. E a lição vem na forma de comparação: Jonas se importou com uma planta que não plantou e que durou uma noite. Deus se importa com uma cidade de mais de cento e vinte mil pessoas “que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda”. A expressão provavelmente descreve gente sem instrução religiosa, ou talvez crianças. De um jeito ou de outro, o argumento é que essas pessoas importam para Deus mais do que a conveniência de Jonas.
O que Jesus quis dizer com “o sinal de Jonas”?
Jesus usa Jonas duas vezes nos evangelhos. Em Mateus 12, diz que a única prova que aquela geração receberia seria “o sinal do profeta Jonas”: assim como Jonas passou três dias no ventre do peixe, o Filho do homem passaria três dias “no coração da terra”. A ida ao abismo e a volta viram figura da morte e ressurreição.
Na mesma passagem, Jesus acrescenta que “os homens de Nínive” se levantarão no juízo contra aquela geração, “porque se converteram com a pregação de Jonas, e eis que está aqui quem é maior do que Jonas”. O sermão fraco de Jonas converteu uma cidade pagã. A pregação de Jesus, muito maior, encontrou resistência no próprio povo. É o mesmo padrão do livro, agora apontado para dentro. Quem quiser ver como Marcos trata essa reação vale ler o estudo de Marcos.
Como fazer um estudo de Jonas na prática
Um estudo de Jonas rende mais quando o livro é lido de uma vez, e ele se lê em dez minutos. Depois releia contando quantas vezes Jonas fala com Deus e o que ele pede em cada oração. Da barriga do peixe ele agradece; fora da cidade ele quer morrer. Entre uma oração e outra está toda a mudança que o personagem não teve.
Um plano de quatro dias, um capítulo por dia: capítulo 1 (a fuga e a tempestade), capítulo 2 (a oração de dentro do peixe), capítulo 3 (a pregação e o arrependimento de Nínive), capítulo 4 (a raiva, a planta e a pergunta final). Leia cada um na Bíblia online e pare no último versículo por um minuto, porque o livro foi feito para terminar sem resposta. Para acompanhar a trajetória do profeta em vez da estrutura do livro, veja o perfil de Jonas na Bíblia.
Perguntas frequentes sobre o livro de Jonas
Quem escreveu o livro de Jonas?
O livro é anônimo e fala de Jonas na terceira pessoa. Foi escrito depois dos eventos que descreve, possivelmente séculos depois. Jonas, o profeta, viveu no século 8 antes de Cristo, segundo 2 Reis 14:25.
Por quanto tempo Jonas ficou dentro do peixe?
Três dias e três noites, segundo Jonas 1:17. Jesus usa esse período como figura dos três dias entre sua morte e sua ressurreição.
Jonas foi engolido por uma baleia?
O texto hebraico diz “um grande peixe”, não baleia. A palavra “baleia” apareceu em traduções antigas e virou tradição popular, mas o livro não especifica a espécie.
Nínive foi destruída depois?
Sim, cerca de 150 anos mais tarde, em 612 antes de Cristo, conforme profetizado no livro de Naum. O arrependimento no tempo de Jonas adiou o juízo, não o cancelou para sempre.
Qual é a mensagem central do livro de Jonas?
Que a misericórdia de Deus alcança quem se arrepende, inclusive povos inimigos, e que essa amplitude costuma incomodar quem já se considera do lado certo. O livro é uma crítica ao coração fechado do próprio povo de Deus.
Por que o livro termina com uma pergunta?
Porque a pergunta é dirigida ao leitor tanto quanto a Jonas. Ao não registrar a resposta do profeta, o texto obriga quem lê a formular a sua.
Quem faz os estudos bíblicos deste site?
Os textos são escritos por João Andrade, que estuda a Bíblia há mais de quinze anos. O método e a trajetória estão na página do autor.
A pergunta que ficou sem resposta
Imagine Jonas sentado na encosta, a planta seca ao lado, o sol na nuca, a cidade que ele queria ver em ruínas ainda de pé lá embaixo. Deus faz a última pergunta do livro: e eu não deveria ter compaixão dessa gente toda? E o texto acaba. Não há versículo 12. O autor deixa Jonas em silêncio de propósito, porque o silêncio agora é seu. A pergunta era para ele, mas passou a ser sua no instante em que você terminou de ler.