Estudo de Naum: a Mesma Cidade de Jonas, um Século Depois, Sem Perdão

Um estudo de Naum volta a um lugar que a Bíblia já visitou antes: Nínive, a mesma cidade que ouviu a pregação de Jonas, se arrependeu de saco e cinza, e foi perdoada. Só que Naum acontece cerca de um século depois, e desta vez não há chamado ao arrependimento. Há apenas sentença, sem chance de reversão.

Este estudo de Naum explica o que mudou entre os dois livros, como o julgamento é descrito, e por que a mesma frase de esperança que aparece aqui reaparece, quase palavra por palavra, em outro profeta que Paulo citaria séculos depois.

Resumo

  • Naum profetiza contra Nínive, a mesma cidade que se arrependeu no livro de Jonas, cerca de um século antes.
  • O livro descreve Deus como “zeloso e vingador” contra o culpado, mas refúgio para quem confia nele (1:2-7).
  • O capítulo 2 narra o cerco e a queda da cidade com imagens de leão, símbolo comum da Assíria.
  • O capítulo 3 lista os pecados de Nínive, violência, mentira, saque, sedução política das nações, e a compara a Tebas, que também caiu apesar de suas defesas.
  • O livro termina sem esperança de cura para a ferida da cidade, cumprido historicamente com a queda de Nínive em 612 a.C.

Quem foi Naum e quando ele profetizou?

Sabemos apenas que era “o elcosita” (1:1), referência a um local não identificado com certeza. A data, porém, pode ser calculada com razoável precisão pelo próprio texto: o capítulo 3 menciona a queda de Tebas, chamada Nô-Amom (3:8-10), evento histórico de 663 a.C., como algo que já aconteceu. E o livro inteiro anuncia a queda de Nínive como ainda futura, o que aconteceu de fato em 612 a.C. Isso situa Naum num período de pouco mais de cinquenta anos, entre as duas datas, provavelmente próximo do final desse intervalo, quando o poder assírio já mostrava sinais de fraqueza.

Jonas Naum
Data aproximada Século 8 a.C. Entre 663 e 612 a.C.
Mensagem a Nínive Julgamento anunciado, com prazo (40 dias) Julgamento anunciado, sem prazo nem chamado à conversão
Resposta da cidade Arrependimento em massa, jejum do rei ao gado Nenhuma resposta registrada
Resultado Deus se compadece e não executa a destruição (Jonas 3:10) Destruição total anunciada e cumprida em 612 a.C.

Por que Nínive recebe um julgamento tão diferente do livro de Jonas?

Em Jonas, a mesma cidade ouve uma mensagem de julgamento iminente, se cobre de saco e cinza, jejua do rei ao gado, e Deus “se arrependeu do mal que tinha anunciado lhes faria, e não o fez” (Jonas 3:10). Em Naum, não há pregação, não há prazo, não há chamado ao jejum. O texto trata o arrependimento anterior como passado encerrado: “eu te afligi, mas não te afligirei mais” (1:12) soa como referência a um ciclo já fechado, seguido agora por um segundo capítulo da história de Nínive que termina sem misericórdia. A explicação mais simples está na distância de tempo: a geração que se arrependeu diante de Jonas já não governava a cidade que Naum enfrenta. O comportamento denunciado no capítulo 3, violência, mentira, saque sistemático de nações, sugere que a mudança de coração não durou além de uma geração.

Como Naum descreve o caráter de Deus no capítulo 1?

O SENHOR é tardio em irar-se, mas grande em poder, e ao culpado não tem por inocente.
Naum 1:3

O capítulo abre com uma tensão deliberada: Deus é “zeloso e vingador” (1:2), mas também “tardio em irar-se” (1:3) e “bom”, servindo “de fortaleza no dia da angústia” para “os que confiam nele” (1:7). Não são atributos contraditórios. São a mesma justiça vista de dois lados: paciência prolongada com quem se volta para ele, e juízo certo com quem não se volta, mesmo depois de anos de espera. Vale notar que Naum não descreve um Deus impulsivo. Descreve um Deus que esperou, e cuja paciência tinha limite.

O que a frase sobre “os pés do que traz boas novas” tem a ver com Romanos 10?

Eis sobre os montes os pés do que traz as boas novas, do que anuncia a paz!
Naum 1:15

Essa imagem, alguém correndo sobre os montes com uma notícia de alívio, aparece quase palavra por palavra em Isaías 52:7: “Quão formosos são, sobre os montes, os pés do que anuncia as boas novas”. É esse versículo de Isaías, não o de Naum, que Paulo cita depois em Romanos 10:15 para falar do evangelho. Os dois profetas, Naum e Isaías, usam a mesma imagem de forma independente, cada um anunciando alívio depois de um período de opressão, o que mostra como certas frases de esperança circulavam e se repetiam entre os profetas do Antigo Testamento, prontas para reaparecer quando a ocasião pedisse.

Como o capítulo 2 descreve a queda de Nínive?

A imagem central do capítulo é o leão, símbolo comum da realeza assíria em relevos e monumentos da época: “onde está agora o covil dos leões… o leão arrebatava o que bastava para os seus filhotes” (2:11-12). Nínive tinha vivido de saque, como um leão que enche seus covis de presas. Naum inverte a imagem: “eis que eu estou contra ti… a espada devorará os teus leõezinhos” (2:13). O predador que nunca precisou temer nada agora é caçado. A narrativa do cerco, portas dos rios se abrindo, palácio dissolvido, riquezas saqueadas (2:6-9), descreve com precisão o colapso final da capital assíria diante dos exércitos babilônico e medo, décadas depois de escrito.

Quais eram os pecados específicos de Nínive segundo o capítulo 3?

O capítulo abre chamando a cidade de “ensangüentada… cheia de mentiras e de rapina” (3:1), e usa a imagem de uma “meretriz” e “mestra das feitiçarias” que “vendeu as nações” (3:4), uma forma de descrever a manipulação política e a sedução de outros povos para servir aos interesses da capital. O texto então convoca uma comparação direta: “és tu melhor do que Nô-Amom?” (3:8), Tebas, cidade egípcia protegida por rios e mar, que ainda assim caiu e foi levada cativa décadas antes. Se uma cidade com defesas naturais tão fortes não escapou, o argumento é que Nínive, apesar de suas próprias fortificações, também não escaparia.

Como fazer um estudo de Naum na prática

Leia os três capítulos junto com o livro de Jonas, na ordem cronológica dos eventos, não da posição no cânon: primeiro Jonas, depois Naum. O estudo de Jonas mostra a mesma cidade recebendo misericórdia; este estudo de Naum mostra a consequência de não sustentar essa mudança ao longo das gerações seguintes.

Para o cerco final descrito no capítulo 2, vale conferir o capítulo 2 completo na Bíblia online, prestando atenção em como cada verbo de ação, saltar, colidir, tropeçar, constrói a sensação de caos militar.

Perguntas frequentes sobre Naum

Naum e Jonas falam da mesma cidade?

Sim, ambos tratam de Nínive, capital da Assíria. Jonas registra o arrependimento e o perdão da cidade; Naum, escrito cerca de um século depois, anuncia sua destruição final, sem chamado ao arrependimento.

Quando Naum foi escrito?

Provavelmente entre 663 a.C. (queda de Tebas, mencionada como evento passado em 3:8-10) e 612 a.C. (queda real de Nínive, ainda futura no texto), possivelmente mais próximo dessa segunda data.

Por que Deus não perdoou Nínive uma segunda vez?

O texto não apresenta um pedido de arrependimento nem uma resposta a ele, como acontece em Jonas. Os pecados listados no capítulo 3, violência sistemática, mentira e saque de nações, sugerem que a mudança de coração da geração de Jonas não durou nas gerações seguintes.

O que representa o leão em Naum 2?

O leão era símbolo comum do poder e da realeza assíria. Naum usa a imagem para descrever Nínive como um predador que viveu de saque e que, no julgamento anunciado, se torna a presa caçada.

Naum 1:15 é citado no Novo Testamento?

Não diretamente. A frase sobre “os pés do que traz boas novas” também aparece, quase idêntica, em Isaías 52:7, e é essa versão de Isaías que Paulo cita em Romanos 10:15. Os dois profetas usam a mesma imagem de forma independente.

Por que Nínive é comparada a Tebas no capítulo 3?

Porque Tebas (Nô-Amom), protegida por rios e mar, tinha defesas naturais fortes e ainda assim caiu décadas antes. O argumento de Naum é que, se aquela cidade não escapou, Nínive também não escaparia, apesar de suas próprias fortificações.

Quem faz os estudos bíblicos deste site?

Os textos são escritos por João Andrade, que estuda a Bíblia há mais de quinze anos. O método de trabalho e a trajetória dele estão na página do autor.

A misericórdia que teve prazo

Nínive já tinha ouvido a pior notícia possível, se arrependeu, e recebeu de volta décadas de vida que não teria tido. Naum mostra o que aconteceu com esse tempo extra: voltou a ser gasto do mesmo jeito de antes, violência, mentira, saque, até esgotar de novo a paciência que já tinha sido esgotada uma vez.

Da próxima vez que você receber uma segunda chance, vale lembrar que Nínive também recebeu, e que o livro que registra o que ela fez com ela não é Jonas. É este aqui.

João Andrade

João Andrade

João Andrade estuda a Bíblia há mais de 15 anos. Não é teólogo de formação: o que tem é anos de estudo pessoal, centenas de livros de exegese lidos e o hábito de conferir cada versículo no contexto e no idioma original antes de escrever. Criou o Bíblia Online Fiel para o cristão que quer profundidade sem linguagem acadêmica.