Um estudo de Colossenses só faz sentido quando se entende a ameaça que motivou a carta. Alguém chegou naquela igreja pequena, no interior da Ásia Menor, com uma oferta atraente: a fé em Cristo seria apenas o começo, e existiria um nível acima, com regras de alimentação, festas certas, disciplina do corpo e reverência a anjos. Paulo escreve, da prisão, para dizer que esse nível acima não existe.
São quatro capítulos, e a tese cabe numa frase: Cristo basta. Ele existe antes de tudo, criou o que há, sustenta o que criou e, pela cruz, reconciliou o mundo consigo. Quem tem Cristo já tem “toda a plenitude”, e não precisa de complementos espirituais vendidos como se fossem um degrau mais alto.
Resumo
- Escrita por Paulo, preso, provavelmente em Roma por volta do ano 60, para uma igreja que ele nunca visitou, fundada por Epafras.
- O problema em Colossos era uma mistura de legalismo judaico, ascetismo e culto a anjos, apresentada como espiritualidade avançada.
- A resposta de Paulo é o “hino a Cristo” de 1:15-20, que coloca Jesus acima de toda a criação e de todo poder espiritual.
- Se você está completo em Cristo, regras sobre comida, calendário e disciplinas do corpo são “sombra”, e a substância já chegou.
- A vida cristã que Paulo descreve no capítulo 3 nasce de estar “ressuscitado com Cristo”, não de seguir uma lista.
O que é a carta aos Colossenses?
Colossos era uma cidade em declínio no vale do rio Lico, perto de Laodicéia e Hierápolis. Paulo nunca esteve lá. A igreja nasceu do trabalho de Epafras, um cristão da região, que foi visitar Paulo na prisão e levou notícias preocupantes. A carta é a resposta, entregue por Tíquico junto com Onésimo, o escravo fugido cuja história está na carta a Filemom, escrita ao mesmo tempo e para a mesma cidade.
Colossenses faz parte do grupo chamado “epístolas da prisão”, com Efésios, Filipenses e Filemom. O paralelo com Efésios é forte: mesmos temas, mesma estrutura de código doméstico, quase as mesmas frases em vários pontos. Muitos estudiosos entendem que as duas foram escritas na mesma época, com Colossenses tratando de um problema local específico e Efésios funcionando como versão mais geral.
Qual era o erro que ameaçava a igreja de Colossos?
Paulo nunca dá um nome ao ensino que combate, então o reconstruímos pelas respostas dele. Era uma síntese de elementos que, sozinhos, pareciam piedosos:
- Regras sobre comida e bebida, e observância de festas, luas novas e sábados (2:16).
- “Culto dos anjos”, visões e uma pretensa humildade (2:18).
- Proibições ascéticas: “não toques, não proves, não manuseies” (2:21).
- “Filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens” (2:8), com promessa de conhecimento secreto.
Vale notar como Paulo desmonta cada peça. Contra as regras alimentares e o calendário, ele diz que são “sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo” (2:17): quando a substância chega, a sombra perde a função. Contra o culto a anjos, lembra que na cruz Cristo “despojou os principados e potestades” e “deles triunfou” (2:15), então não faz sentido reverenciar poderes derrotados. Contra o ascetismo, faz uma observação afiada: essas práticas “têm alguma aparência de sabedoria”, mas “não são de valor algum senão para a satisfação da carne” (2:23). Passar fome de propósito parece humildade e não cura o orgulho.
O que diz o “hino a Cristo” de Colossenses 1:15-20?
No meio do primeiro capítulo, o texto muda de ritmo e vira quase poesia. Muitos estudiosos acham que Paulo está citando ou adaptando um hino já cantado nas igrejas. O conteúdo é a arma principal da carta:
Colossenses 1:16-17
Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele.
A expressão “primogênito de toda a criação” (1:15) já foi usada para dizer que Cristo seria uma criatura. No contexto da carta, ela diz o oposto: “primogênito” aqui indica posição de herdeiro e precedência sobre tudo, não ordem de nascimento. O ponto de Paulo é que todo tipo de poder espiritual que os falsos mestres queriam venerar foi criado por Cristo e está abaixo dele. Se a igreja entende isso, a oferta de um “nível acima” desmorona sozinha.
O que é o “mistério” revelado em Colossenses 1:27?
O ensino falso vendia conhecimento secreto, coisas que só os iniciados sabiam. Paulo usa a mesma palavra que eles gostavam, “mistério”, e a esvazia:
Colossenses 1:26-27
O mistério que esteve oculto desde todos os séculos, e em todas as gerações, e que agora foi manifesto aos seus santos; Aos quais Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, esperança da glória.
No vocabulário de Paulo, “mistério” não é um enigma reservado a poucos, é algo que esteve escondido e agora foi anunciado a todos. E o conteúdo desse mistério não é uma técnica nem uma fórmula: é “Cristo em vós”. A leitura pastoral desse versículo costuma focar na presença de Cristo no crente, o que está certo. Vale acrescentar o golpe que ele dá no ensino falso: se o segredo já foi contado, e é o próprio Cristo, não sobra nada para os falsos mestres oferecerem como exclusividade.
O que Paulo quer dizer com “estais completos nele”?
É o centro pastoral do estudo de Colossenses. Depois do hino, Paulo aplica:
Colossenses 2:9-10
Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade; E estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade.
A palavra traduzida por “perfeitos” ou “completos” é a mesma raiz de “plenitude”. Paulo faz um jogo deliberado: a plenitude está em Cristo, e quem está em Cristo participa dela. Os “tesouros da sabedoria e da ciência” que o ensino falso prometia como segredo estão “escondidos” em Cristo (2:3), disponíveis a quem crê. A tentação de Colossos tem versões modernas: a ideia de que a fé comum é insuficiente, de que falta uma experiência, uma técnica ou um segredo. A resposta da carta é que a pessoa unida a Cristo não está num degrau inferior esperando subir.
Como a ética de Colossenses 3 nasce da ressurreição?
O capítulo 3 abre com a conjunção que amarra todo o argumento dos dois capítulos anteriores:
Colossenses 3:1-3
Se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra; Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.
A ordem importa. Paulo não começa com uma lista de comportamentos e depois oferece motivação. Ele afirma primeiro o que já aconteceu, a morte e a ressurreição do cristão junto com Cristo, e só então descreve a conduta que combina com isso: largar a ira, a mentira e a ganância, e “revestir-se” de misericórdia, humildade e paciência, com o amor como “vínculo da perfeição” (3:14). É o oposto exato do método ascético que ele acabou de criticar. Lá, a disciplina tentava produzir a santidade. Aqui, a conduta brota de uma identidade que já é real.
O que fazer com o código doméstico de Colossenses 3:18 a 4:1?
Como em Efésios e em 1 Pedro, Paulo dá instruções a esposas e maridos, filhos e pais, servos e senhores. O trecho é curto e um estudo honesto não o omite. Dois detalhes orientam a leitura. Primeiro, cada dupla recebe uma palavra, não só o lado subordinado: maridos são mandados amar e “não se irritar”, pais a não desanimar os filhos. Segundo, o fecho é dirigido aos senhores de escravos: “fazei o que for de justiça e eqüidade a vossos servos, sabendo que também tendes um Senhor nos céus” (4:1). Há intérpretes que leem essas ordens como norma permanente e outros como orientação para uma sociedade que a igreja não tinha poder de reformar de imediato. O texto ancora tudo numa frase repetida: faça como “ao Senhor, e não aos homens”.
Como fazer um estudo de Colossenses na prática
Um estudo de Colossenses rende mais quando a carta é lida de uma vez, e são só quinze minutos. Depois divida em duas metades claras: capítulos 1 e 2 são doutrina, quem é Cristo e por que ele basta; capítulos 3 e 4 são prática, como isso muda a vida e as relações. O eixo que liga as duas partes é a palavra “com Cristo”: sepultados com ele, ressuscitados com ele, escondidos com ele.
Um plano de quatro dias: capítulo 1 (a oração de Paulo e o hino a Cristo), capítulo 2 (o erro combatido e a suficiência de Cristo), capítulo 3 (a nova vida e as relações), capítulo 4 (oração, testemunho e as saudações finais). Leia cada bloco na Bíblia online e, ao chegar no capítulo 4, repare na quantidade de nomes: Onésimo está ali, e a história de Filemom se cruza com esta carta. Para ver o argumento paralelo em maior escala, vale ler depois o estudo de Romanos.
Perguntas frequentes sobre Colossenses
Quem escreveu a carta aos Colossenses?
Paulo, com Timóteo como cossignatário, escrevendo da prisão. A grande maioria da tradição cristã atribui a carta a Paulo, datada por volta dos anos 60 a 62.
Paulo conhecia a igreja de Colossos?
Não pessoalmente. Ele afirma em 2:1 que muitos ali nunca viram seu rosto. A igreja foi fundada por Epafras, um cristão da própria cidade, que informou Paulo sobre o problema.
Qual é a mensagem central de Colossenses?
A supremacia e a suficiência de Cristo. Ele é superior a todo poder espiritual e a toda tradição religiosa, e quem está unido a ele já tem tudo o que precisa, sem níveis extras a alcançar.
O que era a “heresia de Colossos”?
Não há um nome no texto. Pelas respostas de Paulo, era uma mistura de regras alimentares e festas judaicas, ascetismo, culto a anjos e busca por conhecimento secreto, oferecida como espiritualidade superior.
“Primogênito de toda a criação” significa que Cristo foi criado?
No contexto, não. O termo indica posição de herdeiro e precedência sobre tudo. O versículo seguinte diz que todas as coisas foram criadas por ele, o que exclui que ele seja uma delas.
Qual a relação entre Colossenses e Efésios?
São muito parecidas em tema e linguagem, escritas na mesma época. Colossenses responde a um problema local; Efésios desenvolve os mesmos temas de forma mais ampla, possivelmente como carta circular.
Quem faz os estudos bíblicos deste site?
Os textos são escritos por João Andrade, que estuda a Bíblia há mais de quinze anos. O método e a trajetória estão na página do autor.
A carta que também foi para Laodicéia
No capítulo 4, Paulo pede que os colossenses troquem cartas com a igreja vizinha de Laodicéia. Havia uma carta dele para os laodicenses que não chegou até nós. Vale ter isso em mente ao estudar Colossenses: a igreja pequena e ameaçada do vale do Lico recebeu uma das descrições mais altas de Cristo em toda a Bíblia, e a primeira coisa que Paulo mandou fazer com esse texto foi passar adiante.