Estudo de Esdras: 2 Líderes, 2 Metades e Décadas de Silêncio

Um estudo de Esdras encontra o livro dividido em duas metades. Nos capítulos 1 a 6, um governador e um sacerdote reconstroem o templo. Nos capítulos 7 a 10 chega o escriba Esdras, o texto passa para a primeira pessoa e a questão deixa de ser o prédio para ser o povo. Entre as duas metades o livro cala: 6:22 termina uma cena e 7:1 abre com “Passadas estas coisas”, sem dizer quantos anos se passaram.

Este estudo de Esdras acompanha o decreto de Ciro, que aparece duas vezes na Bíblia, a obra que parou, os três reis persas que a autorizaram, o versículo 7:10 sobre preparar o coração e os capítulos 9 e 10, os mais difíceis do livro.

Resumo

  • Esdras narra o retorno do exílio na Babilônia: a primeira metade (1 a 6) trata do templo sob Sesbazar, Zorobabel e Jesuá, e a segunda (7 a 10) trata da chegada de Esdras e da lei.
  • O decreto de Ciro em Esdras 1:1-3 é quase idêntico ao que fecha 2 Crônicas 36:22-23, e o próprio texto o liga à palavra de Jeremias.
  • A obra do templo parou (4:24) até os profetas Ageu e Zacarias falarem (5:1-2), e foi concluída no sexto ano de Dario (6:15).
  • Três reis persas, Ciro, Dario e Artaxerxes, autorizam e financiam a obra, e o texto registra os três decretos.
  • Esdras 7:10 dá a ordem do ministério de Esdras: buscar a lei, cumpri-la e só então ensiná-la. Os capítulos 9 e 10 mostram o preço dessa seriedade, com a questão dos casamentos com estrangeiras.

Como o livro se divide em duas metades?

A primeira metade termina com a dedicação do templo “no sexto ano do reinado do rei Dario” (6:15). A segunda começa quando Esdras sobe a Jerusalém “no sétimo ano do rei Artaxerxes” (7:7). A partir de 7:28 o narrador fala em primeira pessoa (“subiram comigo”, 8:1; “chegaram-se a mim”, 9:1), e isso muda o tom do livro.

Se o Artaxerxes de 7:7 é o primeiro, Esdras chegou por volta de 458 a.C., cerca de cinquenta e oito anos depois da dedicação do templo. Parte dos estudiosos prefere o segundo Artaxerxes, e nesse caso o intervalo passa de cem anos. Nas duas datações, o silêncio entre 6:22 e 7:1 cobre décadas. Vale notar que em 4:6 o texto já cita “Assuero”, o rei de Ester 1:1, que a maioria dos estudiosos identifica com Xerxes I: os acontecimentos do livro de Ester se passam nesse intervalo. Muitos estudiosos observam ainda que 4:6-23 avança no tempo para tratar de outra oposição, a contra os muros, e que 4:24 volta ao tempo do templo. O livro agrupa os fatos por tema além de por data.

Por que o decreto de Ciro aparece no fim de Crônicas e no começo de Esdras?

“No primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia (para que se cumprisse a palavra do SENHOR, pela boca de Jeremias), despertou o SENHOR o espírito de Ciro” (1:1). O texto é quase idêntico ao de 2 Crônicas 36:22-23, o parágrafo final de Crônicas, que na ordem da Bíblia hebraica é o último livro. Esdras começa no ponto em que Crônicas termina, e muitos estudiosos veem nisso uma ligação deliberada.

A “palavra de Jeremias” é a promessa de que, “passados setenta anos em Babilônia”, Deus visitaria o povo (Jeremias 29:10). E Isaías 44:28, muito antes, tinha nomeado Ciro: “É meu pastor, e cumprirá tudo o que me apraz”. O verbo de 1:1, “despertou”, merece atenção: Deus desperta o espírito do rei, e em 1:5 desperta também o espírito dos que sobem, o que sugere duas iniciativas ao mesmo tempo, uma no palácio e outra no povo. O estudo de Isaías mostra o contexto dessa promessa. Os utensílios do templo levados por Nabucodonosor voltam contados: “cinco mil e quatrocentos” (1:11).

Por que a lista do capítulo 2 está no livro?

O capítulo 2 parece a parte mais árida do livro, mas registra o que a narrativa não diz: quem voltou. O total da congregação é de “quarenta e dois mil trezentos e sessenta” (2:64), fora servos e cantores. O detalhe mais revelador vem no fim da lista: alguns “não puderam provar que as suas famílias e a sua linhagem eram de Israel” (2:59), e alguns sacerdotes, sem registro genealógico, foram “excluídos do sacerdócio” (2:62). O governador mandou que esperassem “até que houvesse sacerdote com Urim e com Tumim” (2:63). O livro registra até o problema sem solução imediata.

Por que construíram o altar antes do templo?

Em 3:1-6, no sétimo mês, o povo se ajunta “como um só homem, em Jerusalém” e levanta o altar. O texto explica o motivo: “porque o terror estava sobre eles, por causa dos povos das terras” (3:3). E acrescenta: “Desde o primeiro dia do sétimo mês começaram a oferecer holocaustos ao SENHOR; porém ainda não estavam postos os fundamentos do templo” (3:6). A adoração recomeçou antes de haver prédio. A prioridade era o culto, e o edifício veio depois.

Porém muitos dos sacerdotes, e levitas e chefes dos pais, já idosos, que viram a primeira casa, choraram em altas vozes quando à sua vista foram lançados os fundamentos desta casa… De maneira que não discernia o povo as vozes do júbilo de alegria das vozes do choro do povo.
Esdras 3:12-13

A cena dos fundamentos tem dois sons ao mesmo tempo. Os idosos que tinham visto a primeira casa choram, e muitos outros gritam de alegria, e o texto diz que não dava para separar um som do outro. O livro não escolhe qual dos dois estava certo.

O que parou a obra e o que a fez recomeçar?

Em 4:2 os adversários oferecem ajuda: “Deixai-nos edificar convosco, porque, como vós, buscaremos a vosso Deus”. Zorobabel recusa (4:3). A partir daí, “o povo da terra debilitava as mãos do povo de Judá, e inquietava-os no edificar” (4:4), e em 4:24 “cessou a obra da casa de Deus”. Ela ficou parada até o segundo ano de Dario. Em 5:1-2, os profetas Ageu e Zacarias falam, e Zorobabel e Jesuá voltam a construir. O estudo de Ageu mostra o que o profeta disse ao povo naquele segundo ano.

Quando o governador Tatenai escreve a Dario perguntando quem autorizou a obra, o rei manda procurar nos arquivos da Babilônia. O decreto de Ciro não está lá, e sim “em Acmeta, no palácio, que está na província de Média” (6:2). O rolo que autorizava a obra estava num lugar diferente do esperado.

Que reis persas decretaram a obra, e o que cada um decidiu?

Rei Referência O que decretou Como fala de Deus
Ciro 1:2-4 e 6:3-5 Reconstruir a casa em Jerusalém, com a despesa paga pela casa do rei, e devolver os utensílios “O SENHOR Deus dos céus me deu todos os reinos da terra” (1:2)
Dario 6:6-12 Confirmar o decreto de Ciro, pagar a obra com os tributos além do rio e punir quem o alterar “O Deus, pois, que fez habitar ali o seu nome derrube a todos os reis” (6:12)
Artaxerxes 7:11-26 Enviar Esdras com prata e ouro, isentar de tributo os ministros do templo e nomear magistrados “Para que haveria grande ira sobre o reino do rei e de seus filhos?” (7:23)

O versículo 6:14 resume a obra como feita “conforme ao decreto de Ciro e Dario, e de Artaxerxes, rei da Pérsia”. Artaxerxes aparece ali embora seu decreto só venha em 7:11-26, e isso sugere que o livro reúne os fatos por tema. O hebraico original mostra ainda algo que o português esconde: as cartas e os decretos dos reis (4:8 a 6:18 e 7:12-26) estão em aramaico, a língua da administração persa.

O que Esdras 7:10 diz sobre preparar o coração?

Porque Esdras tinha preparado o seu coração para buscar a lei do SENHOR e para cumpri-la e para ensinar em Israel os seus estatutos e os seus juízos.
Esdras 7:10

O texto apresenta Esdras como “escriba hábil na lei de Moisés” (7:6), mas o que sustenta essa habilidade está em 7:10, e a ordem dos verbos importa: buscar, cumprir, ensinar. Nessa sequência, o ensino é a última etapa. A leitura pastoral do versículo é que quem ensina antes de cumprir ainda não terminou o preparo.

O capítulo 8 mostra o mesmo caráter na prática. Antes de partir, Esdras proclama um jejum junto ao rio Aava e explica o motivo: “tive vergonha de pedir ao rei, exército e cavaleiros para nos defenderem do inimigo pelo caminho; porquanto tínhamos falado ao rei, dizendo: A mão do nosso Deus é sobre todos os que o buscam, para o bem deles” (8:22). Eles carregavam prata e ouro, e a proteção veio depois do jejum e da oração (8:23, 8:31). Ao chegar, “tudo foi contado e pesado; e todo o peso foi registrado” (8:34), o que mostra que a confiança em Deus não dispensava a prestação de contas.

O que dizem os capítulos 9 e 10 sobre casamentos com estrangeiras?

Os príncipes contam a Esdras que o povo, os sacerdotes e os levitas “não se têm separado dos povos destas terras” e tomaram mulheres deles, e que “os príncipes e magistrados foram os primeiros nesta transgressão” (9:1-2). Esdras rasga as vestes, arranca cabelos e senta atônito até o sacrifício da tarde (9:3-4). Na oração de 9:6-15, ele fala em “nós” (“Estou confuso e envergonhado”, 9:6), mesmo sem ter cometido o pecado. Em 9:11-12 cita o que Deus mandou “pelo ministério de teus servos, os profetas”, num texto próximo ao de Deuteronômio 7:3: “Nem te aparentarás com elas; não darás tuas filhas a seus filhos”.

O capítulo 10 é o mais duro. Secanias propõe uma aliança para despedir as mulheres e os filhos (10:2-3), o povo concorda, e o processo termina em três meses (10:16-17). Só dois homens são citados como opositores (10:15), e o texto deixa em aberto se Mesulão e Sabetai os apoiaram ou ajudaram na execução. O livro termina numa nota de perda: “todos estes tomaram mulheres estrangeiras; e alguns deles tinham mulheres de quem tiveram filhos” (10:44).

Há leituras diferentes. Uma vê a exigência como religiosa e não étnica, porque as razões citadas são as “abominações” dos povos (9:1, 9:11), e Malaquias 2:11 também condena Judá por casar “com a filha de deus estranho”. A outra lembra que Rute, moabita, disse “o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus” (Rute 1:16) e foi ancestral de Davi (Rute 4:17), e que Malaquias 2:16 ao mesmo tempo diz que Deus “odeia o repúdio”. O estudo de Rute e o estudo de Malaquias mostram esses dois lados. O texto de Esdras não diz o que aconteceu depois com as mulheres e os filhos, e o incômodo que o capítulo 10 provoca faz parte da leitura.

Como fazer um estudo de Esdras na prática

Leia o livro em duas etapas, a primeira até 6:22 e a segunda a partir de 7:1, e escreva no alto de cada uma qual é o problema que ela resolve: o prédio na primeira e o povo na segunda. Um estudo de Esdras que respeite essa divisão evita ler o livro como uma história só. Marque também cada vez que o texto diz que Deus “despertou” ou que a “mão do SENHOR” estava sobre alguém (7:6, 7:9, 8:18, 8:31).

Para o capítulo central, abra Esdras 7. E para ver Esdras lendo a lei ao povo, leia Neemias 8:1-2.

Perguntas frequentes sobre Esdras

Quem foi Esdras?

Quem faz um estudo de Esdras encontra primeiro um sacerdote e escriba descendente de Arão (7:1-5), “hábil na lei de Moisés” (7:6). Subiu da Babilônia a Jerusalém no sétimo ano de Artaxerxes com um grupo de exilados.

Quanto tempo levou a reconstrução do templo?

Segundo a cronologia usual, cerca de vinte anos entre o decreto de Ciro (1:1) e a dedicação no sexto ano de Dario (6:15), com uma interrupção entre 4:24 e o segundo ano de Dario.

Quais reis persas aparecem em Esdras?

Ciro, Dario, Assuero e Artaxerxes. Ciro e Dario autorizam a obra do templo, e Artaxerxes envia Esdras. Assuero aparece só em 4:6, numa acusação contra os habitantes de Judá.

O que significa Esdras 7:10?

Num estudo de Esdras, o versículo mostra que Esdras preparou o coração em três passos: buscar a lei, cumpri-la e ensiná-la em Israel. A ordem dos verbos coloca o ensino por último.

Por que Esdras mandou despedir as mulheres estrangeiras?

Porque os líderes relataram que o povo tinha se misturado com povos de práticas condenadas pela lei (9:1-2), e Esdras citou o mandamento de Deuteronômio 7:3. Há leituras que veem a medida como religiosa e outras que a consideram dura quando comparada a Rute e a Malaquias 2:16.

Qual é a relação entre Esdras e Neemias?

Os dois trabalharam em Jerusalém depois do exílio. Esdras cuida da lei e do povo, e em Neemias 8:1-2 aparece lendo a lei perante a congregação. Neemias cuida dos muros da cidade.

Quem faz os estudos bíblicos deste site?

Os textos são escritos por João Andrade, que estuda a Bíblia há mais de quinze anos. O método de trabalho e a trajetória dele estão na página do autor.

Os dois sons de Esdras 3:13

No dia em que os fundamentos do templo foram lançados, o texto diz que “o som se ouvia de muito longe” (3:13). Quem ouvisse de fora não saberia dizer se era festa ou luto.

Quem já viu o começo de uma obra menor do que a que existiu antes conhece os dois sons. O livro não pede que se escolha um deles.

João Andrade

João Andrade

João Andrade estuda a Bíblia há mais de 15 anos. Não é teólogo de formação: o que tem é anos de estudo pessoal, centenas de livros de exegese lidos e o hábito de conferir cada versículo no contexto e no idioma original antes de escrever. Criou o Bíblia Online Fiel para o cristão que quer profundidade sem linguagem acadêmica.